Escrever o amor hoje

Atualizado: Set 4

Ser autora de romance de amor às vezes é complicado. Pra começar, é um mercado inchado, tem muita oferta e por isso é mais difícil se destacar. Mas provavelmente o principal problema é o insistente preconceito contra o gênero. Por exemplo, tem essa ideia de que autora de romance ganha muito porque vende muito. Risos. Sério? Releia lá a frase sobre o mercado inchado, meu anjo. Mas eu realmente não vim falar sobre essa parte mercadológica e editorial.

Antes de mais nada, acho que vale a pena aqui um, digamos assim, disclaimer sobre minhas crenças e pensamentos: eu acredito que o amor romântico é uma invenção social do ser humano. Não acho que seja "natural", mas sim "aprendido" socialmente, através de modelos, e os modelos estão disponíveis na vida real e em tudo que consumimos, como músicas, filmes, livros. A meu ver isso não tem nada de negativo ou que desvalorize o amor romântico, afinal se for ver bem quase tudo que somos e fazemos é socialmente construído, quer você perceba (aceite) isso ou não. Tirando coisas bem básicas tipo respirar, sede, fome, necessidade de dormir, fazer xixi, cocô etc. etc., quase tudo que você considera necessário e "natural" não é natural, e sim social. Isso significa que é ruim? Não. Hábitos de higiene, como escovar os dentes, também foram socialmente aprendidos e fazem bem pra nós. Usar sapatos também (confortáveis, por favor). Porém é bom a gente ser capaz de enxergar esse tipo de coisa pra poder discernir e perceber que, por exemplo, depilação feminina, algo que é social também, não tem nenhuma justificativa higiênica ou de saúde (muitos dizem inclusive o contrário quando se trata de depilação íntima). É só estético. Você se depila se você quiser, você não é obrigada, como diz aquele sábio meme (não vou discutir neste post as implicações da depilação íntima feminina no reforço de uma juventude forçada na mulher, mas é um tema muito válido, viu?).

Isto posto, o mesmo que eu disse sobre depilação, vale para o amor romântico.

Oi?

Bruna, tu bebeste, amiga?

Sim, eu bebi, mas foi ontem, já passou o pilequinho, eu juro.

A questão é: É OPCIONAL.

Amor romântico é opcional. Não é uma necessidade do ser humano. Não se cobre e não cobre das pessoas. Ninguém tem obrigação de namorar e casar ou de ter milhões de histórias de amor pra contar. Mas aceitem uma coisa: amor romântico é um tema literário tão válido quanto qualquer outro.

Leiam de novo essa frase.

Amor romântico é um tema literário TÃO válido quanto qualquer outro. Nem menos. Nem mais. Quem gosta de ler romance de amor não é um leitor pior ou menor. Há livros ruins? Claro, em todos os gêneros há. Mas há livros excelentes também. Não julgue o leitor, não julgue o autor.



Ou eu deveria dizer "a leitora" e "a autora"? Bem, não é surpresa pra ninguém que é uma maioria de mulheres que lê e escreve romance de amor. Por quê? Porque as relações de afeto, de família, as relações interpessoais foram historicamente estabelecidas dentro do âmbito do universo feminino. As mulheres cuida(va)m das pessoas da família, dos filhos, dos pais, dos maridos, elas são as cuidadoras, portanto conhecem, entendem e se interessam por gente, por sentimentos.

Vocês percebem como isso é terrível? Porque, vejam, essas mulheres se relacionam com homens o tempo todo. Os pais, irmãos, maridos, esses indivíduos não são considerados responsáveis por relações humanas, por cuidar e portanto não são público-alvo de romance (seja romance de amor, seja romance familiar), ou seja, são pessoas que diariamente travam relações interpessoais mas estão desprovidos até de vocabulário e linguagem pra organizar seus sentimentos! Quem já não ouviu um namorado ou marido dizer que não sabe explicar o que sente ou pensa? Eles têm sentimentos, isso é óbvio, só que não aprenderam nem mesmo a enxergá-los, identificá-los, compreendê-los, menos ainda falar sobre eles e muito menos ainda perceber os sentimentos dos outros. Pior, aprenderam a achar tudo isso "meloso". A mulher, ao ser cuidadora, ao ser colocada como responsável pelas relações pessoais, foi ensinada a prestar atenção às pessoas. Já disse a Virginia Woolf que uma mulher escreve sobre um homem muito melhor do que um homem escreve sobre uma mulher simplesmente pelo fato de que a mulher sabe enxergar as pessoas. É a mais pura verdade.

E é claro que é por isso que esse gênero literário é considerado subalterno, porque tudo que é associado ao universo feminino é subalterno, tem menos valor e é menos sério. Mesmo mulheres - e autoras mulheres, por vezes - acham romance romântico muito "de mulherzinha". E eu não preciso dizer pra vocês que tudo que é "de mulherzinha" é ruim, né? Não à toa a primeira onda da revolução feminista se deu num movimento de (muitas aspas aqui, mas era visto assim) "ascender" ao mundo masculino. Porque o homem tinha liberdade e postos de poder, a mulher era (é!) subalternizada e almejava essa "subida". Mas ninguém queria "descer" pro universo feminino. Vivemos, depois disso, uma ou duas gerações em que o cuidar (da casa, da família) foi extremamente desvalorizado, mesmo por mulheres. Era coisa de mulher fraca ou pobre, que não tinha opção. Porque, se pudesse optar, jamais optaria por isso! Mas alguém precisa cuidar das pessoas, das crianças, dos velhos, dos lares. A questão é: alguém quer? E aqui eu falo de homem e mulher, pode ser o marido, e não a esposa, que cuida melhor da criança; pode ser o filho, e não a filha, que cuida melhor dos pais idosos, mas como saber? Por que ninguém quer o que é tachado de "feminino"?

Onde entra o romance de amor nisso aqui? Eu faço sobretudo ficção de entretenimento, mas nunca penso que meus livros são isentos de responsabilidade pois todo livro passa uma mensagem. Passará mesmo que eu não queira então é melhor eu querer e eu pensar bem na mensagem que está passando, né? Afinal eu estou assinando aquilo ali. O romance de amor, assim como todo tipo de ficção que aborda relações humanas, faz a gente pensar em coisas que vive e faz também a gente desejar, projetar. O romance de amor cria modelos. E cria muitos modelos ruins.

Então deixa eu falar um pouco de mim como leitora. Eu sou leitora de romance, e embora seja ultimamente o gênero que mais leio, não sou leitora exclusiva de romance. É normal e esperado que, como autor(a) você siga uma linha de trabalho, eu gosto de escrever de romances românticos, é isso que eu faço bem e amo trabalhar nesse gênero! Sinto prazer com isso, sinto segurança no resultado do meu trabalho, enfim, é minha carreira, minha paixão. Mas como leitora eu vario muito. Leio poesia, contos, leio filosofia, história, amo suspense e policiais, tenho paixão por clássicos e dramas históricos, leio também um pouco de fantasia e distopia. Tem gêneros que curto menos e leio menos? Sim. Terror, por exemplo. Mas, pra vocês terem uma ideia, eu li "Drácula" três vezes. "A Volta do Parafuso" é um dos livros que eu mais amo na vida! Então parece que eu gosto de terror clássico? Beleza, você tem direito a seus gostos. Mas variar é muito bom, especialmente se você é escritor profissional.

É. Isso vale pra você aí, escritor de outros gêneros. Leia romance de amor, porra.

E como eu falei, eu leio muito romance. Gente, eu sou uma das leitoras de romance mais chatas que conheço. Do meu nível assim, consigo pensar em duas amigas: Talita Moura e Mariana Guarilha, espero que vocês estejam lendo este post, safadas. A gente revira olho pra boy lixo, pra trama fraca, pra atitudes machistas nos livros. Eu sei que tem muitas colegas de grupos de leitoras - e colegas autoras de romance também - que me consideram pouco romântica porque eu reclamo muito, sou crítica, às vezes meio cínica. Acho que temos conceitos diferentes de romantismo. Eu sou muito romântica. Só que eu não tolero qualquer coisa por romance, não. E me agonia demais o reforço do sexismo nos romances de amor. Eu, por exemplo, tento equilibrar ao máximo os papéis de homens e mulheres nos meus livros. Não coloco sempre o homem tomando iniciativas, não fico reforçando inocência na mulher ou passividade. Tem um vídeo interessante que fiz sobre personagens femininas que está no canal Passos Entre Linhas e eu super recomendo pra quem se interessa pelo assunto, é só clicar aqui.

Aliás, eu pouco falo sobre isso mas aqui vai: apesar de ser bissexual, eu gosto de escrever romance hétero. Por quê? Porque eu acho urgente estabelecer modelos positivos de relacionamento homem/mulher. A meu ver, é onde estão os piores problemas de relacionamentos românticos, e isso inclui mulheres aceitando um monte de lixo e achando bonito. Isso não quer dizer que eu me force, que eu esteja "deixando de escrever" algum casal não-hétero, aliás tem romance LGBT meu que vai sair ano que vem!


E aqui a gente chega no motivo de escrever romance de amor. Claro que eu escrevo porque quero, porque gosto, mas também escrevo porque é válido, porque é importante. Porque o amor existe, está aí, e existem amores bons e ruins. Porque estamos num momento em que o lado ruim de relacionamentos amorosos está sendo exposto e isso é bom, mas um dos reflexos é uma geração que tem medo de amar. Existe o amor bom, o amor pacífico, e desde que você se lembre de que o amor romântico é opcional, ficará muito mais fácil viver em paz, pois não vai aceitar qualquer lixo só pra não ficar sozinha. Você pode ficar sozinha, não tem nada de errado nisso. Você pode também ficar sozinha durante um tempão e depois achar alguém legal. Você também pode ter achado alguém legal, vivido esse amor por um tempo e depois acabou, e mesmo que você não tenha outra pessoa, isso não significa que o amor não presta ou é uma mentira, pois você já o viveu. O amor é bom, é a essência dele ser bom, é o melhor de todos os sentimentos. Se ele está na sua vida, na sua história e nos seus anseios, ele também deveria estar na sua estante.



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