Escrevendo fora do eixo: como "deve ser" a literatura paraense?

Recentemente eu fui abordada no Instagram por alguém que não me seguia (e que não tinha nenhuma publicação) e que, numa DM, me perguntou onde se passavam as minhas histórias, se era em Belém. Eu respondi que nem todas, pois a maioria delas se passa em locais indefinidos. A resposta dessa pessoa foi assim: "Ok. Eu pergunto porque hoje em dia muitos escritores paraenses não escrevem sobre sua terra, sua gente. Mas claro que cada um escreve o que quer." Ela também citou nominalmente um autor que, segundo ela (o perfil tem nome de mulher mas sem foto), era o único que ela conhecia que fazia isso (escrever sobre sua terra, sua gente) e que ela achava muito bom. Eu pensei em responder, mas acabei não dando mais assunto. Se ela não me seguiu, suponho que não se interessou pelo meu trabalho, quer isso se deva à minha resposta, quer não.

Sim, é verdade, cada um escreve o que quer... Mas será que é mesmo verdade que todos os autores estão imbuídos do mesmo "direito"? Pessoas que vivem em grandes centros urbanos são cobradas de que sua regionalidade esteja presente, notória e visível na obra que produzem?

Existe um ponto aí que até é bastante compreensível. Os grandes centros urbanos já são suficientemente conhecidos, já estão no imaginário das pessoas. Você tem uma ideia sobre São Paulo e Rio de Janeiro, mesmo que nunca tenha morado lá, mesmo que nunca tenha sequer ido lá, porque a mídia mostra, porque o que é produzido e escrito lá chega em todo lugar. Estou falando isso em termos de estados/Brasil, mas podemos facilmente transpor para países/mundo. Você não lê uma autora americana esperando regionalidade, mas talvez se decepcione se o livro de uma nigeriana ou de um tailandês não for tão exótico quanto você espera. Isso acontece porque você conhece menos a Tailândia e a Nigéria do que os Estados Unidos - e se você está lendo um autor desse local podemos supor que quer conhecer.

Só que aí entra o mais importante: literatura é ARTE. Não é propaganda turística. Desculpa a franqueza, mas é a verdade. O que eu quero dizer com isso? Que não dá pra forçar. Um autor vai colocar no papel aquilo que ele tem na cabeça, no coração, aquilo que faz seu sangue disparar, sempre pontuado, de alguma forma, pelas coisas que ela/e viveu. Não vai sair de sua pena o que o público leitor ou crítico acha que um autor paraense deveria escrever. Não funciona assim.


Antes de mais nada, vamos entender que o autor paraense é um autor. Entendido isso, então como ele/a deve escrever?


Bem. Ele/a deve escrever bem.


Se sua vivência, sua criatividade, sua arte não aparecerem retratadas sobre um cenário "exótico" (no nosso caso, amazônico), isso não é demérito nenhum nem torna esse artista menos paraense. Há muitos escritores produzindo histórias que se passam aqui, sim. Ainda tem, sempre terá, e isso ótimo. Mas o que nós temos hoje e que por vezes "espanta" público e crítica é variedade. Uma autora amazônida não poderia falar de suas origens através uma lenda ambientada no Japão? Ou um autor paraense não poderia usar cenários mágicos para criar uma fábula sobre amor livre?

A minha vida adulta se dividiu em duas cidades. Sou nascida em Belém mas saí daqui moça ainda para viver em São Paulo. Primeiro morei em casa de parente, depois sozinha, depois casei. Eu me tornei adulta em São Paulo, eu assinei carteira de trabalho pela primeira vez em São Paulo. Abri conta, paguei conta, lavei banheiro e cozinha, fiquei doente sozinha em casa, matei barata, passei por blecaute e inundação de apartamento. Meu vestibular foi na UFPA, mas me formei na USP e essa transição estampada na minha vida acadêmica é a cara da minha vida adulta. Meus melhores amigos e minha família sempre estiveram aqui, mas lá eu fumei maconha, andei sozinha pela rua sem ninguém saber onde eu estava, fui roubada na rua, fui roubada no carro, fui roubada no ônibus, perdi a virgindade, sofri desilusões, criei minhas primeiras histórias, vivi um grande amor, casei (e com um mineiro, ou seja, já tem outro estado brasileiro na minha família, há 20 anos, aguenta a mistura aí!), tive meu primeiro gato - e o perdi. Voltei pra Belém porque amo Belém, porque amo viver aqui, mas minha vida é isso, é essa mistura, e essas experiências que me compõem naturalmente compõem minha obra também.

E não é só isso. Minha vida familiar é toda permeada afetivamente por Portugal, país de onde vem a família do meu pai, minha vida pessoal e profissional é marcada pelo francês e pela França, passei anos estudando a língua, a literatura e a história desse país, agora me digam por que isso deveria ser mantido à margem do que eu escrevo? Talvez as pessoas hoje sejam mais móveis, viajem mais, saiam mais de suas cidades - ainda que muitas delas voltem -, e esse ir e vir vai transparecer na obra. Mas, acima de tudo isso, o que se pode afirmar é que hoje tem mais gente escrevendo e produzindo arte e jogando pro mundo. A arte é democrática hoje como nunca foi. Use seu acesso, consuma a arte que é feita fora dos grandes centros, e você vai encontrar variedade, e não um modelo amarrado. Você vai encontrar o que deseja dentro do mix que nós somos, que eu sou. Você vai achar o Círio, sim, e a Baía do Guajará, vai achar Mosqueiro e Basílica, mas também uma Belém misturada com São Paulo, com Lisboa, com Paris, você vai achar as mandingas de amor do Ver-o-Peso, você vai achar chuvas, lendas, visagens, vai achar uma Belém urbana, vai achar mentes criativas que voam a partir daqui, prenhes da nossa cultura, mas sem limites, absorvendo tudo. A literatura é rica. E nós nunca devemos ter como objetivo restringi-la ou empobrecê-la.



p.s.: Só esclarecendo um ponto que falei lá no primeiro parágrafo, boa parte das minhas histórias se passa em cidades que eu não nomeio, não defino, porque na minha cabeça são um pouco uma mistureba de tudo que vivi. Mas, se vocês querem detalhes internos, eu posso dizer pra vocês que, na minha cabeça, "No Parque da Cidade" se passa em São Paulo, "D.O.C." se passa em Belém e "Os Livros de Ventura" se passa numa Belém misturada com São Paulo, pois tem espaços de ambas as cidades. Não nomear essas cidades me dá liberdade. Se você quer ler algo que escrevi e que se passa nomeadamente em Belém, leia o conto "O Caso Oblíquo", na minha primeira antologia ("Oníricos"), e leia também meus contos que vão ser publicados na revista Jamburana e na coletânea "Trama das Águas", da editora Monomito.

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