Dia ruim



E então chega o último dia do prazo daquele conto que você tá devendo. Você não é de deixar nada pra última hora, mas, por menos que queira admitir, a quarentena está mexendo com você de um jeito horrível.


"Ué, você já trabalhava em casa antes da pandemia, já era mãe de um menino autista, que diferença fez afinal?"

É até difícil de explicar.


Ele quer atenção. Ele quer companhia. O tempo todo. Quem pode culpá-lo? Só tem pai, mãe, casa. As opções são poucas. É só uma criança. A atenção que ele demanda, porém, não é simples. Ele quer imprimir uma folha de desenhos para colorir, toda criança quer isso. Mas ele quer quatro veículos de construção, muito específicos. Você achou. Não, não pode ser esse, porque ele não quer escavadora com rodas, precisa ser com trilhos. A margem de adaptação desta pequena pessoa é estreita.


E você está no seu limite.


Todos os dias ele te interrompe, os intervalos que você tem de tempo para efetivamente trabalhar são, na melhor das hipóteses, de uma hora corrida. E não é todo dia que você consegue uma hora corrida sem interrupção. Faz de noite, então. De noite a sua cabeça tá tão exausta que simplesmente não sai nada bom. Você passou semanas reclamando que não chegava nenhuma tradução para fazer, aquele trabalho que pelo menos rende dinheiro. Então parece que a quarentena de todo mundo acabou e chegou tradução. E sua rotina precária desabou como um maldito castelo de cartas.


Num dia bom, você pararia o que estava fazendo e ficaria longos minutos com ele no Google escolhendo cada veículo específico, recortando no Paint as palavras soltas que vieram na bendita imagem, montando no Word a folha com os quatro veículos que ele quer. Você já fez isso mais de mil vezes. Mas não é um dia bom, cada dia tem menos dias bons. Você diz que tem que ser aquela folha, já pronta, com um monte de veículos de construção, mais do que ele pediu (porém não é especificamente o que ele pediu e, pra ele, é o mesmo que NÃO dar o que ele pediu), porque você não tem tempo de ficar procurando um por um e recortando e limpando e isolando as imagens e montando uma folha sob medida pra ele.


Ele chora, frustrado.

Você também.

Ele se assusta com você chorando, pede a você que não chore, você chora ainda mais. Então para e tenta explicar o que está acontecendo.

Mas ele não presta atenção. Já está olhando para os lados, desviando o olhar do seu, procurando um escape, algo pra fazer.

Que tal desenhar em vez de colorir?

Ele aceita a sugestão.


Mas você... Você já não consegue terminar o conto, né? Controlou o choro um pouquinho, para não assustá-lo, ele é só uma criança, você o ama tanto, quer protegê-lo. Ele te abraça. É tão afetuoso. Você gostaria que fosse um dia bom, um dia que você ia mais uma vez abandonar o que é seu e abraçar o que é dele, ir fazer algo com ele, porque ele quer você. E você quer ser aquela mãe que dá. Que entrega. Mas não é um dia bom. Cada dia tem menos dias bons. E mesmo que você saiba que não vai voltar para o estado de espírito que precisa para escrever aquele conto, porque você não consegue escrever aquilo ali chorando de desespero, você sabe que não pode largar tudo e ir brincar, porque tem as traduções. E dá pra traduzir chorando de desespero, então é o que você vai fazer.


"Ah, eu sempre escrevo chorando de desespero, assim que é bom!"


Mas suas histórias não são assim, né? Não. As dos outros, talvez, mas não as suas. Você escreve de outro jeito, com outra paz, em outra sintonia. Você já aprendeu a aceitar que a escrita pra você é uma amiga, uma casa, tem cheiro de prazer, segurança e amor, mesmo que vendam essa ideia interessante de que escrita é uma máquina de desespero movida a dor e mágoa. A sua não é. Então você não consegue voltar para aquela sintonia agora, a da ficção, porque você foi sugada com toda a força para o seu próprio desespero. Seus personagens estão longe. Longe. Longe.


A quarentena está sendo o reviver do seu puerpério. A sua vida guardada na gaveta, fora do seu alcance. Você chora de saudade da sua vida. Você lembra como era e se pergunta se um dia vai voltar.

De novo, você não tem essa resposta. Enquanto escreve este texto, ele já se cansou de desenhar, de ver vídeo, e está encostado no seu braço, tentando ler o que você escreve. Só que ele sabe ler, e você não quer que ele leia isto.


Enquanto você escreve este texto, a professora dele manda mensagem dizendo que já vai começar a aula online. Enquanto você escreve este texto, mais um cliente de tradução está mandando mensagens no Whatsapp, perguntando se você está disponível.


Você está?


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Texto escrito num momento ruim de um dia ruim de uma mãe atípica isolada há 6 meses num apartamento com seu filho autista de 6 anos. Essa mãe sou eu. Muitos dias têm sido assim. Não todos. Mas muitos.

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