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Leia com cuidado. Eu estou aqui.

Na minha cabeça, este texto já começou a ser escrito inúmeras vezes. E ainda mais vezes eu me perguntei se deveria escrever, se fazia sentido, se me faria bem, se era arrogância achar que era preciso. Poderia dizer que escrevo este texto por mim, para mim. Não é verdade. Escrevo para quem precise ler. Porque muitas vezes eu precisei e ninguém o escreveu.


O meu processo de decisão de optar pela cirurgia bariátrica foi lento, cuidadoso, difícil, espinhoso, são muitos os adjetivos que eu poderia dar. Começou há mais ou menos quatro anos, depois de muito tempo recusando a ideia. É importante dizer que: eu não estava errada em recusar e não estou errada em escolher isto, agora. Eu não me arrependo de não ter feito antes. Não é errado mudar de ideia, sobretudo quando mudam as circunstâncias. Mas isso não significa que seja fácil, principalmente porque, durante todos os anos que eu não queria, eu tive que ter muitos argumentos para defender minha decisão, que muita gente não entendia. Hoje, ir "contra" meus próprios argumentos, que na época desenvolvi por necessidade, é a parte mais difícil da minha decisão.


Ser gorda não é fácil. Pra começar, o que muita gente precisa entender é que ser gorda não é uma escolha, muito longe disso. É como o seu corpo funciona, é o que o seu corpo é, e o seu corpo é você. Quem você é, por dentro, se molda também a partir de quem você é por fora. Eu sou gorda e não vou deixar de ser, mesmo que eu perca peso. Meu corpo nunca será padrão, mesmo depois da cirurgia. Mas não é por causa disso que mudei de ideia.


Primeiro quero falar sobre a recusa. Em muitos aspectos, pra mim tomou forma de aversão. Venho de uma família de gente gorda. Uma família grande, de muitas pessoas grandes. De pessoas que fizeram muita piada de gordo uns com os outros, pessoas que reparavam no quanto os outros comiam, fosse muito ou pouco. A identidade de ser gordo era muito forte na minha família, minha infância e adolescência foi permeada disso, mas nunca como algo positivo. Embora não fôssemos abertamente cruéis, sempre foi, no mínimo, motivo de chacota entre nós. A primeira pessoa da minha família que fez essa cirurgia, faleceu. Minha tia Lídia, que nunca deixou de fazer uma tremenda falta para nossa família. Eu fiquei traumatizada com a cirurgia. Eu nunca poderia odiar tanto ser gorda a ponto de achar que valia a pena arriscar a minha vida para deixar de ser. Essa lógica pode não fazer sentido pra vcs, mas foi assim que eu assimilei a bariátrica.


Alguns anos depois, outros parentes fizeram a cirurgia. E foram fazendo. E mais outros e outros. Eu me perguntava: ninguém ficou com medo? Essa morte não teve o mesmo impacto que teve em mim? Não falo da perda da pessoa, mas sim do impacto do medo do procedimento mesmo. Eu não compreendia.


Paralelamente, quanto mais o tempo passava, mais eu pensava e refletia sobre ser gorda, mais eu lia outras pessoas gordas, mais eu enxergava o preconceito, mais eu reconstruía meu discurso e minha visão sobre meu corpo. Mais raiva eu tinha do preconceito e menos raiva eu tinha de ser gorda. Ou seja, tudo muito ao contrário do que fui ensinada. Aos 20 e poucos anos, embora sempre tenha tido minhas inseguranças, eu já me achava bonita, gostosa e era feliz sendo quem eu era. Eu não queria ser outra pessoa. E não quero.


Porém ser gorda é muito solitário. Entendam, eu aqui estou falando de gorda grande, não tamanho 52, mas sim tamanho 66, 70, eu tô falando de extensor de cinto no avião e de dificuldade achar aparelho de ressonância que suporte meu peso. Por isso é solitário, porque, quem é grande como eu sou, se acostuma a ser a maior pessoa em qualquer grupo. E aí vc não convive com ninguém que compreende os perrengues que vc passa. Pra comprar roupa, pra saber se a cadeira do bar te aguenta, pra usar um banheiro apertado no qual vc mal consegue abrir as coxas. Nada é feito pra vc e as pessoas magras que te rodeiam sequer enxergam isso. É muito fácil achar que a anormal sou eu quando essas coisas todas são questões apenas na minha vida.


É solitário porque demorei muitos anos para ter referências gordas na mídia que não fossem foco de piada. Quando acho uma referência e me apego, ela emagrece. Eu sempre me sentia traída. Se eu paro pra pensar, claro que sei que é bobo. Ninguém tem a obrigação de manter determinado peso por lealdade a mim, nem quem me conhece e menos ainda quem não me conhece. Mas eu me sentia traída mesmo assim, porque parecia que o recado sempre era "não adianta lutar e se debater, a única solução é ceder e se adequar". E isso quase sempre envolverá sacrifícios duradouros e/ou procedimentos severos que vão mudar radicalmente a vida de uma pessoa que não necessariamente levava uma vida desregrada, como magros gostam de fantasiar. Ainda assim, não importa o quanto esses procedimentos sejam severos ou arriscados. Magros sempre olharão com uma sensação de alívio, "ufa, aquele gordo finalmente caiu em si, criou vergonha". Mesmo que essa pessoa magra nunca tenha tido que fazer nada parecido para se manter magra, ela considera válido, porque o objetivo de todo mundo sempre tem que ser a magreza.


Há muitos tipos de corpos dissidentes. Corpos negros, trans, PCDs. Mas o caso é que o corpo gordo é visto como "reformável". E a sociedade acha que tem o direito de te impor essa reforma, já que decidiu que seu corpo é errado. Se vc não escolhe a reforma, então vc é gordo "porque quer". Vc nunca é gordo "porque é". É sempre "porque quer"! E vc está fazendo a escolha errada ao não se odiar o bastante para se reformar a qualquer preço.


Corpos gordos são vistos como um porvir. Como se escondessem dentro de si um corpo magro que precisa ser encontrado a todo custo. O corpo gordo tem que se tornar algo, ele nunca está bom como ele é. É extremamente doloroso ser vista dessa forma a vida inteira, como se eu estivesse sempre devendo essa transformação, como se houvesse uma expectativa sobre algo que devo me tornar, essa versão mais magra de mim, que nunca existiu e que foi desejada, imaginada, visualizada por tantas pessoas, familiares, médicos e, por um tempo, também por mim.


Mas não pelo meu filho.


Quando eu contei a ele sobre a cirurgia que eu pretendia fazer, ele chorou e disse que não queria que eu emagrecesse porque gostava de mim como eu era: GORDA. Eu chorei também. Porque precisei esperar mais de 45 anos pra ouvir isso de alguém da minha família. Eu precisei fazer essa pessoa e ensinar a ela que não é ruim ou feio ser gordo. E ele aprendeu.


Não estou doente. Não tem absolutamente nada que tenha sido diagnosticado em mim que se deva ao fato de eu ser gorda, sinto muito frustrar essas expectativas. Estou cansada de ter exames de sangue melhores do que os do meu marido, que sempre foi magro. Estou cansada do olhar de surpresa de médicos ao verem meus exames, porque enxergam meu corpo entrando no consultório e diagnosticam mil coisas sem trocar uma palavra comigo. Quantas vezes já percebi a frustração daquele profissional de saúde de não poder corroborar seu terrorismo contra gordos comigo, porque não sou hipertensa, não sou diabética e minhas taxas estão boas? Como não comprovo seus preconceitos médicos, resta me ameaçar com um futuro sombrio. Ameaçam-me há décadas com doenças que até hoje não se concretizaram. Vivi situações assim a vida inteira. Estou cansada.


Mas ainda não é por isso que mudei de ideia.


Minha decisão é movida por dois motivos. Nos últimos anos, desde que cheguei aos 40, minha mobilidade se reduziu muito. Eu perdi muito da minha qualidade de vida, resistência física, respiratória. Dificuldades de me levantar, de caminhar, muito cansaço, e minhas últimas tentativas de perder peso com dieta não deram certo. O segundo motivo é o medo de um dia ter qualquer outro problema de saúde e meu peso ser um fator que dificulte o tratamento e até o diagnóstico, dada a dificuldade que tenho de acessar certos exames, por exemplo. Mesmo que a sociedade veja todos os gordos como doentes, é incapaz de nos garantir acesso à saúde. Incoerente, né?


Eu já havia decidido fazer a cirurgia antes da pandemia, eu ia fazer em 2020, quando tudo fechou. Esse atraso me deixou triste e ansiosa, um acréscimo ao estresse da pandemia em si, que já não foi pouco. Engordei mais de 10kg durante a pandemia, período no qual meu marido, tendo mais ou menos a mesma alimentação que eu, tão preso em casa quanto eu, perdeu 5kg. Corpos são diferentes e funcionam de maneira diferente.


Em 2021 e 2022 eu fiquei muito doida. O mix depressão e ansiedade pegou muita gente, e eu fui junto, com todos esses agravantes. Porém minha decisão não mudou, apesar de que volta e meia tem gente "me cobrando" sobre esse meu processo e tentando "me convencer". Não é preciso me convencer, nunca foi. Sei o que quero. Mas sei também das minhas dificuldades e dar cada passo em direção a essa cirurgia foi um grande esforço mental e emocional para mim. O maior que já fiz.


Sim, estou em terapia.


Então não foi como se "finalmente" esse "momento inevitável" chegasse. Poderia nunca ter chegado. Entendam uma coisa, e isto possivelmente é a coisa mais importante que vou dizer: minha opção não significa que cedi a pressões estéticas. Pelo contrário, eu tenho na verdade um medo terrível de não me reconhecer no processo de perda de peso. Minha opção sequer significa que todo mundo que tem o mesmo peso que eu tem essas mesmas dificuldades que eu tenho. Muitas pessoas gordas grandes têm ótima mobilidade! Minha opção não significa que quem tem o mesmo peso que eu (ou mais) tem que fazer essa cirurgia. Minha opção não significa que odeio meu corpo ou que odeio ser gorda. Minha opção não significa que discordo das ativistas gordas que sigo e admiro. Na verdade este texto é fruto da consciência de que esse tipo de debate é necessário. E, talvez, seja também fruto da necessidade de "me explicar" com a comunidade gorda e, talvez um pouco, "pedir perdão" a qualquer pessoa que me siga buscando referência [essa é a parte do texto em que me sinto arrogante, mas estou passando por cima disto porque sei como é se sentir traída, e não quero que ninguém se sinta]. Minha opção é minha. Só diz respeito à minha vida, às minhas circunstâncias e só eu sei o que me custou. Mas, por experiência, sei que decisões assim impactam dentro de grupos de pessoas que sofrem preconceitos e que buscam referências para seguir vivendo e lutando com firmeza. Por isso escrevo este texto, que eu gostaria tanto de ter lido de outras pessoas gordas no meu passado.


Além disso, me recuso a perder todo esse peso em silêncio e deixar as pessoas na dúvida se fiz ou não, achando que talvez seja algo que alcancei só "fechando a boca". Não toleraria contribuir com gente gorda se sentindo fracassada. Não se sintam. É extremamente difícil perder peso quando temos um corpo gordo. Não é culpa sua, como não é culpa minha.


Por último, não dá pra falar sobre este meu processo sem falar sobre gordofobia médica. Desenvolvi, nos últimos anos, pavor de ir em médico. Na véspera de uma consulta, eu me sinto mal, perco o sono. Vivi situações horríveis mesmo durante o processo de buscar o profissional com quem eu iria me operar. "Minha balança não pesa você", disse um dos cirurgiões que visitei, um que foi recomendado por muitas pessoas que conheço. Portanto eu que me vire e me humilhe indo atrás de me pesar em balança de carga (sim, foi o que ele me disse pra fazer) porque esse expert não tem uma mísera balança capaz de pesar pessoas grandes, que, no caso, é a porra da especialidade dele. Só pra constar, encontrei balanças que me pesaram em vários outros estabelecimentos de saúde, mas segundo ele, em sua bela clínica, era muito caro pra ele investir (eu pesquisei o preço na época, custava R$200). Sem falar no outro que, em vez de dizer "não tenho capacidade nem expertise pra operar uma pessoa do seu tamanho" optou por me dizer que a cirurgia era muito arriscada pra mim e disse (juro): "vc tá gorda mas pelo menos tá viva, né?"


Gordofobia médica é horrível. É cruel e injusta, pois abusa da posição de autoridade, faz terrorismo, culpabiliza o paciente e o afasta do auxílio médico.


Chegando aos finalmentes, quero explicar duas coisas. Primeira: não informei meu peso neste texto de propósito. Se vc chegou até aqui querendo saber meu peso, aproveita essa outra informação que eu vou te dar: ISSO É FETICHE. Isso é um fetiche seu. Peso não é diagnóstico. Não vou te dizer quanto peso porque vc vai perder seu foco do que eu tô dizendo pra se dar o direito de ficar chocada/o, porque vc vai achar que esse é o peso limite de alguma coisa, que mais do que isso "não pode", mais do que isso "tem que operar", ou mesmo que operar com menos do que isso é desnecessário ou só por vaidade. Pare de julgar as pessoas pelo peso! Apenas PARE. É claro que, infelizmente existe, sim, muita gente que faz essa cirurgia por vaidade, mas lembrem que ninguém se opera sozinho, se existem bariátricas desnecessárias sendo realizadas, é porque tem médico fazendo. Existe também muita gente que se convence que é por saúde, mas, no fundo, é porque não suporta mais a pressão. Porque não aguenta o tranco de viver sendo gorda. Sei que realmente é difícil e tenho minhas próprias opiniões sobre cada caso que me é dado conhecer. Se vc é magro, não julgue, vc não sabe como é difícil. Se vc é gorda/o, sei que esse julgamento está aí na sua cabeça, como está aqui na minha também, e faz parte da nossa avaliação do mundo e de como ele nos marginaliza, nos expulsa e nos odeia. Por isso não tiro seu direito de se sentir traída/o pela minha escolha, até mesmo por mim, porque já me senti assim. Peço sinceramente que me perdoe se de alguma forma decepcionei vc. Digo isso porque respeito seu sentimento, de verdade. Respeito suas expectativas. Elas não são tolas. Peço porém que, se possível, compreenda que não posso viver de acordo com as expectativas de outras pessoas sobre meu corpo, sejam essas pessoas gordas (expectativas que eu respeito) ou magras (que tenho eu a ver?). Preciso cuidar das minhas próprias expectativas e priorizá-las.


A segunda coisa que quero explicar é por que não deixarei comentários ativados aqui. Não tenho energia para lidar com críticas e julgamentos sobre algo tão difícil para mim. Tampouco tenho energia para lidar com elogios, sobretudo de gente magra. Não está nos meus objetivos de vida ser admirada por gente magra que me acha corajosa, sensata e o escambau apenas por existir sendo gorda. Sei lá, mas às vezes até me ofende. Se você acha incrível eu não ter vergonha de ser gorda, não me odiar e não me achar feia, isso fala sobre você, e não sobre mim.


Por fim me despeço dizendo que não estou indisponível a conversar sobre o assunto privadamente, mas também não vou dizer que estou disponível, porque não sou conselheira, não sou terapeuta, não sou influencer. Não tem nada mais distante das minhas intenções do que me tornar a pessoa que vai começar a falar sobre emagrecimento e ficar mostrando antes e depois. Eu amo meu corpo gordo hoje como amarei meu corpo sempre, acima de quaisquer circunstâncias. Se precisar conversar, ok, venha. Venha com calma. O assunto é delicado para mim e o momento, ainda mais.


Obrigada por ler.

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