Prólogo "Todos Os Dias"

 

final de 2016 ~ Brasil

sequência imediata do final de "Stage Door"

— Cláudia, você vai ser minha ruína.1

 

— Vou ser? Achei que eu já era.

 

Ethan lançou-lhe um olhar enviesado, estreitando os olhos.

 

— Tenho muita coisa ainda para você arruinar.

 

Ela balançou a cabeça e coçou a testa, parada diante da porta da casa térrea.

 

— Isso não vai dar certo.

 

— Cláudia...

 

Ela olhou para ele sem virar a cabeça, girando os olhos e fixando o olhar desconfiado nele.

 

— Não fala assim que eu acho que você vai me beijar.

 

Ethan sorriu.

 

— Eu poderia.

 

— E arrancar minha roupa.

 

— Ah. — Ele pigarreou cuidadosamente. — Prometo que não — ele falou, mais baixo.

 

Cláudia pôs a mão na maçaneta da porta que ninguém nunca trancava.

 

— Você não vai estragar tudo, vai?

 

Ele segurou a mão dela, com um sorriso resignado.

 

— Já estragamos tudo, Cláudia.

 

Ela inspirou fundo, segurou o ar no peito e abriu a porta.

 

— Tô nervoso pra caralho — Ethan sussurrou, assim que a porta se abriu.

— Ai, Ethan! Achei que você estava calmo, para eu poder ficar nervosa! — ela sussurrou de volta.

— Cau?? É você? — Lá de dentro da casa veio o grito numa voz jovem e ansiosa.

E abriram-se as portas do inferno.

Ao menos para Ethan. Irmã, pai, mãe, avó, todo mundo falando português e ao mesmo tempo. Havia a cachorra, também. Ela latia. Pelo menos isso. Ethan entendia a cachorra melhor do que qualquer uma das pessoas na sala de estar. E o recado da cachorra, que rosnava e mostrava os dentes para ele, não podia ser mais claro.

Ele estava ferrado.

Cláudia guiava, mediava, falava em português, em inglês, punha a mão nas costas dele e o empurrava para a mesa. Ethan seguia com um sorriso nervoso que ele tinha certeza que era assustador.

Pela cara que a irmã de Cláudia fazia, devia ser mesmo uma coisa horrorosa de se olhar.

Porque, em um momento, o que havia era Cláudia. Cláudia e suas respostas imprevisíveis, Cláudia e seus beijos malucos, Cláudia e a devoção apaixonada que ela inspirava em Ethan. No outro momento, havia toda aquela gente ali.

É claro que aquele povo não tinha brotado do chão. Eram a família dela, tinham precedência sobre Ethan, haviam chegado na vida dela muito antes dele. Mas, por muitos meses, sem contar os dias que passaram juntos em Londres, havia só eles dois. Agora Ethan estava apavorado. Ele não sabia ser simpático e agradável. Não queria estragar tudo, mas sinceramente era o que ele achava que ia acontecer quando sentou-se à mesa, ao lado dela. Aquilo não era sua vida.

Mas era a vida de Cláudia. E Cláudia era a vida dele. Só ela.

Era estranho pensar assim. Ethan Gower-Jones não era um sentimental. Nunca tinha sido nem pretendia se tornar. Não chegaria ao ponto de dizer que não podia viver sem Cláudia. Ele provavelmente poderia viver sem Cláudia, o ser humano é um bicho bem adaptável. Mas Cláudia existia. Por acaso, ela existia no mesmo planeta e ao mesmo tempo que ele. Por sorte, ela parecia gostar muito dele, talvez quase tanto quanto ele gostava dela. Assim sendo, ele não tinha interesse em tentar uma vida sem ela.

Então o que ele fez durante aquele jantar informal foi algo muito simples. Ethan olhou para Cláudia o tempo todo. Se fosse preciso prestar atenção ao que alguém dizia, mesmo que ele fosse incapaz de entender, ele olhava educadamente para a pessoa em questão e, assim que possível, voltava a olhar para Cláudia. Seu objetivo a princípio era não esquecer o porquê de estar ali, se submetendo àquela situação estranha. Mas no fundo era algo infinitamente prazeroso. E assim ele olhou para ela a noite inteira.

De forma que Ethan mal notou que a garota franzina de finos cabelos castanhos sentada do outro lado da mesa, bem de frente para ele, não tinha olhos para mais nada. Ao vê-la na sala, logo que entrou na casa, Ethan duvidou que a menina de cujos calcanhares a cachorrinha Lady não desgrudava tivesse mesmo 13, quase 14 anos, como Cláudia tinha falado. Pelo tamanho, a menina podia ter 10. Pela expressão, porém, ela podia facilmente ter uns 20. A garota era séria e tinha um olhar avaliador. Mas logo Ethan se distraiu com sua missão de olhar para Cláudia e a garota saiu do seu foco de atenção.

Mas ele não saiu do dela.

Acontece que Melissa era, sim, uma sentimental. E a ligação que tinha com a irmã, bem mais velha do que ela, chegava a ser mais forte do que a que ela tinha com a própria mãe. Melissa era louca pela irmã e o apego era mútuo. De repente, lá estava Ethan, um homem aparentemente disposto a arruinar a preciosa organização da vida de Melissa levando Cláudia embora. É claro que Melissa imaginava que Cláudia sairia daquela casa um dia e, como era muito grande a diferença de idade entre elas, Melissa sabia que ainda seria uma menina quando isso acontecesse. E ela ficaria sozinha. Mesmo assim, não estava pronta. Seu jovem coração estava dividido. De um lado, um romantismo precoce e infantil da menina que amava filmes de princesa e contos de fadas e que, ainda um dia destes, ia para a escola vestida de Cinderela, Bela e Jasmine. Do outro, o ciúme escancarado típico da irmã caçula e o medo da solidão. De modo que Melissa não sabia se achava Ethan um príncipe ou um vilão.

Mas era Ethan. E ele não tirava os olhos da irmã dela. Olhava para Cláudia embevecido, a atenção indivisa, deixando mais claro do que seria educado que só estava ali por causa dela. Ethan deu tão pouca atenção a Melissa que por isso mesmo ela começou a aprová-lo. Não queria a atenção dele. Queria ter certeza de que ele era perfeito para sua irmã.

A última barreira foi derrubada quando Lady saiu do seu abrigo sob a cadeira de Melissa e foi rebolando em seu passinho arrogante e adorável até a cadeira de Ethan. A cachorra esticou o pescoço na direção dele e ele, de repente, se assustou. Mas não se mexeu nem disse nada. Ficou ali, tenso, deixando-se avaliar pelo cão. Cláudia não estava prestando atenção àquele momento crucial. Estava explicando algo para a avó. Só Ethan, Melissa e Lady estavam envolvidos naquela avaliação definitiva. Lady cheirou, cheirou e cheirou a panturrilha exposta de Ethan. Um alvo fácil, desprotegido, já que ele estava de bermuda. A aflição dele era visível em seu rosto imóvel, congelado. Até que Lady coçou atrás da orelha com a patinha dianteira e deitou no chão, encostando a cabeça no pé do estranho. Ethan soltou lentamente o ar que prendera nos pulmões e, por sobre a mesa, cruzou o olhar com o de Melissa, que, finalmente, sorriu para ele.

É. Ele ia servir.

 

*

1Les Passants, Zaz.