"Há Vagas" - conto extra nº 3

ATENÇÃO: SÓ LEIA SE JÁ TIVER TERMINADO DE LER O LIVRO "HÁ VAGAS"

maio 2021 ~ Londres

Bianca

1Meus olhos coçam de cansaço ao entrar em casa no fim de um dia puxado, mas não posso coçá-los. Primeiro entro. Fecho a porta, passo a chave, tiro a chave da porta, coloco no ganchinho. Com cuidado, segurando só pelo elástico, tiro a máscara e penduro no ganchinho ao lado. Então tiro os sapatos, colocando-os na pequena sapateira que comprei mês passado. Em seguida aperto o dispenser de álcool gel da prateleira que eu mesma instalei ao lado da porta e esfrego bem as mãos.

Nick diz que eu arruinei a decoração da entrada com esse monte de ganchinho e álcool e tapete e local de colocar sapatos. Ele tem razão, mas eu não consigo evitar.

 

Ainda acho isso uma loucura. Reabrir teatros agora. Claro que sinto falta, mas acho cedo. Nick diz que não podemos viver presos para sempre, mas eu acho que ele encara a pandemia com tranquilidade demais. Timo fica meio dividido. Acho que está mais ansioso para voltar aos palcos do que eu, ou pelo menos mais ansioso para voltar aos palcos do que apavorado com Covid. Ele simplesmente aceita as medidas de restrição, é cuidadoso, mas não fica se debatendo. Se liberaram, então liberaram, e ele está louco para voltar a cantar. Bem, cantar eu também quero. O que ele quer é estrear em Londres — sei muito bem que isso está fazendo muita diferença para ele. Para mim também, só que, no meu caso, me deixa ainda mais nervosa.

Todo dia eu me pergunto quem tá maluco, se sou eu, por ter medo demais, ou eles por terem medo de menos.

 

Bom, eu com certeza ando bem, beeem louca mesmo. Ter passado o último ano vivendo uma pandemia no Brasil negacionista realmente não contribui para a pessoa relaxar e seguir em frente, né? Mas a quantidade de coisa que aconteceu nos últimos dois meses comigo, francamente... Eu me mudei para Londres, trazendo meu filho, deixando para trás minha mãe e minha avó, eu me casei, caramba! E ainda por cima comecei a ensaiar uma montagem de "The Beauty and the Beast" no West End para a qual eu já tinha sido escalada para o papel principal antes mesmo de pôr os pés em Londres! De repente eu passei do isolamento no Brasil para uma agenda cheia de treinos vocais, de pronúncia, dicção (eu canto em inglês agora, profissionalmente, não aquele inglês de cover improvisado de choperia!) e de dança, além dos ensaios regulares e das atividades normais da vida, tipo ser mãe, e todas as burocracias de mudar de país.

Devo reconhecer que o Timo e a irmã dele estão sendo fantásticos nesse aspecto. É impressionante, eles são uma família que meio que engole a gente, mas com uma delicadeza e naturalidade que a gente nem sente, e quando dá por si já faz parte do esquema deles. O Nick sempre fala isso, que os Wilson Casas são como ventosas: se passar perto demais e encostar, eles grudam. Eu não posso reclamar. Catarina tem sido meu suporte, aquele clichê da irmã que eu nunca tive — sendo que ela teve irmã e ainda tem, mas parece que o suporte entre elas duas nunca foi muito evidente, não. Além disso, ela gosta muito do papel de irmã mais velha do Timo e está muito feliz porque ele finalmente está morando Londres, algo que ela sempre desejou. Ela adora o Nick também, claro, e eu sei que sempre torceu para que eles ficassem juntos. A princípio achei que isso poderia fazê-la ficar desconfiada comigo, mas eu não podia estar mais enganada. Tem alguma coisa diferente que nos une. Uma compreensão tácita, algo que se passa sem muita explicação entre duas mulheres jovens, expatriadas e com filhos pequenos. Ela oferece exatamente o que preciso antes mesmo que eu descubra como explicar minha necessidade ou pedir ajuda. Ela simplesmente sabe, porque já passou por isso e já precisou do mesmo apoio que ela agora me dá.

E apesar de a casa do Nick — nossa casa, ele insiste que eu aprenda a dizer isso — ser enorme a ponto de ter até um estúdio todo equipado aqui dentro, a estrutura da casa da Catarina é muito mais adequada para crianças, porque o Nick é obcecado com privacidade. Se ele pudesse, não teria nenhum empregado em casa. Eu nunca tive empregada na vida, óbvio, mas eu nunca tive uma casa desse tamanho, né? Nick contrata agências, nunca pessoas. Faz absoluta questão de não se apegar com ninguém. Tem esquemas de entrega de comida e de datas e horários para serviços de limpeza e jardinagem. Nem dá pra acreditar o quanto essa casa é limpa porque tem dias que eu não vejo ninguém passar por aqui além de nós e do robô aspirador. Na casa da Catarina é o oposto, tem cozinheira, motorista, babá e tem a Mrs. Roberts, que manda em todo mundo, menos na Catarina — sim, ela manda no Jesse também. De modo que a Catarina vive me dizendo para deixar o Guilherme lá, que uma criança a mais não vai fazer diferença nenhuma e ainda ajuda a entreter as meninas dela e dá um descanso para o Timothy, o mais velho do Jesse, que mora com eles. Dá pra imaginar o quanto um rapaz de quase 17 anos precisaria de descanso de duas irmãs pequenas, embora eu desconfie que o acréscimo de um menininho de 7 anos a essa bagunça não contribui em nada para esse descanso. Não que ele parecesse se importar com isso, quando foi até o portão buscar o Guilherme hoje cedo para passar o dia com eles. Timothy está sempre com aquele sorriso de bom humor no rosto e parecia bastante disposto a entreter o Gui com histórias do time de futebol em que ele joga desde moleque.

Por outro lado, aqui em nossa casa nós temos o nosso silêncio. Eu amo esse silêncio. Os corredores longos, largos, o papel de parede listrado de branco e preto, criando esse efeito de túnel de sonho, o piso que parece que absorve o som dos meus passos. Meus passos. 1, 2, 3. A instrutora disse que eu preciso me movimentar assim no palco. Sinto que estou pegando o jeito. Belle é muito diferente de Christine, acho que tem algo dela que eu consigo trazer para casa depois de cada ensaio. Tenho medo do quanto estou me entregando a essa personagem. Me sinto tão cansada e tão repleta, de emoções e pensamentos, acho que estou despejando tudo nela. Não é ruim. Sei que está ficando muito bom. A vida nunca mais será simples. Sei disso. É como uma lembrança vaga, tudo que veio antes da pandemia, tudo que veio antes do Timo. E do Nick. Às vezes o que sinto por cada um deles parece tão diferente, tão compartimentado, e outras vezes parece uma coisa só. A corrente que nos une, nós três, também cria elos onde só cabem dois de cada vez. É bonito demais, e também é terrivelmente complicado.

Desacelero quando passo em frente ao espelho do corredor. Acima de um aparador fino de ferro fundido e vidro, o espelho de cristal reflete minha imagem cansada. A moldura é de laca amarelo ovo e é linda. Passo a mão pelos cabelos e aliso a bochecha onde a máscara deixou uma marca. Timo diz que esta casa parece um hotel design, e ele tem razão. Mas, de alguma forma, consegue ter o jeito — e o cheiro — do Nick por toda parte. Desde os três Olivier e quatro Tonys na cornija da lareira da sala até o tapete felpudo impecavelmente branco onde ele ama se deitar. Não precisa de uma única foto dele pela casa para eu saber que isso aqui é dele, tudo pensado por ele.

Pensado para nós.

Nunca vou esquecer do que senti quando vi uma cestinha de acrílico na minha mesinha de cabeceira, muito parecida com a que eu tinha no apartamento da Piauí, onde eu largava prendedores de cabelo e brincos antes de dormir. Eu tinha acabado de chegar, vinha arrastando uma das minhas malas e Timo vinha com a outra, me seguindo. Sentei na beira da cama, peguei na mão a cestinha em formato de concha e chorei. Virei para a porta e olhei para ele, que sorria para mim.

— Foi você? — perguntei.

Timo fez que não com a cabeça.

— Já estava aí quando cheguei, ano passado.

Quando o corredor se abre para a parte íntima da casa, o primeiro quarto é o do Gui. O quarto do meu filho também já estava pronto quando Timo chegou. O segundo é o que era da mãe do Nick, e vai ser convertido em quarto de hóspedes quando o Nick tiver paciência de contratar a reforma — e condições emocionais de se desfazer do quarto da mãe, coisa que ele não suporta admitir. Depois o corredor cai para a direita e continua. Porque a nossa parte da casa é mais íntima e isolada. São três quartos. O meu é o primeiro, e minha porta fica bem de frente para a porta do Timo. Nossos quartos são iguais, mas invertidos. Espelhados mesmo, sabe? Camas e armários iguais, de cores diferentes. Cortinas de tecidos iguais, mas tipo positivo e negativo. Quando cheguei aqui, achei isso sinistro pra cacete, mas, ao mesmo tempo... Amei. Não tenho como explicar. À direita, numa continuação mais estreita do corredor, mais para o fundo, tem o último quarto, e o maior de todos, que é o do Nick, mas que ele chama de "nosso".

Viro à esquerda, porque meu destino agora é o meu quarto, onde pretendo tirar essa roupa de rua e tomar um banho.

 

Mas então eu ouço vozes, vindas do quarto em frente ao meu.2

 

E risos.

 

— Para com isso, Nick!

 

Mais risos.

 

Peraí. Nem era para o Nick estar em casa. Era? Ele me disse que tinha uma reunião de trabalho.

 

— Confessa, vai — ouço a voz do Nick, abafada.

 

— Isso é bobagem sua — Timo protesta com a voz calma.

 

Estou parada no pequeno espaço de corredor entre o meu quarto e o do Timo, cuja porta está encostada no batente, mas não fechada.

 

O que me deixa um pouco menos culpada de estar ouvindo.

 

— Você é que está diferente desde que ela chegou, Alteza.

 

Ela? Eles estão falando de mim?

 

Espero que agora isso me dê oficialmente o direito de ouvir essa conversa.

 

— Como se você não estivesse também.

 

— Claro que estou. Hum.

 

Deu pra ouvir bem demais daqui o Nick bufando, consigo imaginar a cara dele.

 

— Porque você é um homem casado agora. — Timo dá uma risadinha.

 

Infelizmente ainda não me sinto como se tivesse direito de ouvir esta conversa. Na verdade me sinto bastante desconfortável.

 

— Não, senhor, não é por isso, é porque você não me dá mais atenção!

 

Fecho os olhos com força.

 

— Ah, meu Deus, Nick, você está com ciúme — Timo provoca.

 

Pensando melhor, talvez o motivo do meu desconforto seja a confirmação de que atrapalhei alguma coisa quando vim para Londres.

 

Soltando o ar lentamente pela boca, eu me escoro na parede ao lado da minha porta. Não sou dada a dramas. Mas também não sou idiota. Esses dois passaram anos apaixonados um pelo outro. Quando finalmente ficaram juntos, não ficaram sozinhos. Até mesmo eu tive um tempo sozinha com o Timo e, vamos combinar, não fazia tanto tempo assim que eu estava apaixonada por ele. Posso imaginar facilmente o quanto um não ficou sonhando com o outro um tempão, muito antes de eu aparecer. Não preciso ter muita imaginação para entender o que deve ter significado para Timo e Nick o último ano, mesmo que tenha sido provocado por circunstâncias desagradáveis. Eles moraram juntos, só os dois, por um ano. Em quarentena. Isolados.

 

Merda. Quem tá com ciúme agora sou eu?? Com ciúme ou com inveja? Nem eu sei mais. Não é justo comparar a minha quarentena com a do Nick, ele perdeu a mãe! Então é isso, meus sentimentos são todos os mais confusos e injustificados, mas estão todos aqui e não querem ir embora. A sensação de que eu cheguei para quebrar algo muito bonito é forte demais para que eu consiga simplesmente afastá-la.

 

— Nunca escondi que sou ciumento — disse Nick, daquele jeito que ele tenta passar por deboche, mas que é o jeito que ele tem que revelar suas vulnerabilidades.

 

— Gato, a Bianca precisa dessa atenção agora. Não faz muito tempo que ela chegou, deixou tanta coisa para trás e tem tanta coisa nova acontecendo.

 

— Você é um amorzinho, Alteza. Ainda bem que ela tem você, porque eu sou insensível e egoísta.

 

— Isso não é verdade — Timo retruca.

 

— Que mentira, Nick — eu sussurro, ao mesmo tempo.

 

Cubro a boca com a mão rapidamente, com medo que eles tenham ouvido.

 

Patético. Não acredito que estou ouvindo conversa escondida na minha própria casa. Encaro meus pés descalços, morta de vergonha.

 

— Não começa a me adular, eu detesto essa mania que vocês têm. Me deixa ser meio ruim de vez em quando, para variar? Eu estou com ciúmes, sim, e com saudade do nosso strip pôquer.

 

Timo dá uma risada.

 

— Eu não sei se tô com saudade, não, eu sou horrível no pôquer, jogo muito mal.

 

O som do movimento sobre o colchão é inconfundível e faz meu estômago se contrair.

 

— Por que você acha que eu gosto tanto de jogar strip pôquer com você? — Nick fala, com a voz mais grave e abafada.

 

Droga. Eu vou ouvir eles se pegando? É isso?

 

Gemidos suaves. Um riso baixo, isso foi o Timo.

 

Meu Deus. Eu vou ouvir eles se pegando. É isso.

 

— Ah... Nick...

 

Meu olhar sobe do chão para a fresta de porta aberta. Eu consigo ver só um dos cantos do pé da cama, parte da janela e... Ah. O espelho. Com o coração disparado, dou um passo para a direita para pegar o melhor ângulo. Minha respiração para no meio do peito. Eles estão se beijando. Eu já os vi se beijando milhões de vezes, qual é a diferença? Porque minha boceta está latejando assim?

Porque todas as outras vezes eles sabiam que eu estava vendo.

Isso é crime? Isso que eu tô fazendo agora é muito errado, não é?

Um riso nervoso sobe pelo meu peito, junto com a certeza de que, sim, é muito errado. Mas o Nick não me julgaria.

Certo. Estou disposta a usar a bússola moral de Nicholas Arkwright, isso é meu novo fundo do poço.

De calça jeans e sem camisa, Nick está em cima do Timo, que está de cueca e camiseta. Timo flexiona uma das pernas, esfrega a coxa na lateral do corpo de Nick e empurra o quadril para cima. Tento engolir saliva e quase me engasgo. Nick espalma a mão em sua coxa e aperta. Eles não param de se beijar e o beijo é cada vez mais sonoro. Eu não vejo as pernas no reflexo do espelho, e também não tenho uma boa visão das cabeças, dependendo de como se movem. Mas dá pra ver as mãos do Timo descendo. Ele vai abrir a calça do Nick, é isso. Rapidamente Nick ergue o corpo e sai do meu campo de visão, provavelmente para tirar a calça. E eu sou presenteada com a visão completinha do dorso do Timo e da ereção que ele acaricia lentamente por cima do tecido da cueca enquanto espera que Nick tire a roupa.

Inspiro um monte de ar de uma vez só. Pelo jeito eu estava sem respirar há tempo demais. Minha nossa, eu já consigo sentir minha calcinha molhada. Quando Nick volta para a cama, ele segura o rosto de Timo com as duas mãos e o faz virar a cabeça para beijá-lo. O ângulo agora piorou um pouco para mim. Tento dar um passo para a frente. Outro para a esquerda. E paro. Bem no meio do trecho de corredor que separa nossos quartos, parecendo um poste que passou por um acidente grave de carro. Meu Deus, o que eu tô fazendo? Certo, daqui consigo ver alguma coisa, é a... A mão do Nick dentro da cueca do Timo.

Nick fala alguma coisa, mas não consigo distinguir as palavras. Timo tenta rir, mas acaba gemendo.

— Nick... Por favor...

Timo, você já está implorando, amor? Até eu sou mais forte do que isso.

O rosto do Nick está um pouco encoberto pelo Timo, mas a esta altura eu tenho certeza que o que tá rolando ali — além da punheta que consigo ver bastante bem — é um monte de sussurros de putaria no ouvido e, se eu conheço bem, provavelmente língua e dentes na orelha também. Timo ergue um pouco o quadril para ajudar Nick a puxar sua cueca. Eu não consigo ver daqui mas me surpreenderia muito se o Nick não estiver pelado desde o momento em que voltou para a cama. Ah, uma leve mudança de posição. Nick se inclina sobre o corpo dele e... Meu Deus, por que eu comecei a ver isto? Estou de calça jeans e desesperada para me tocar. Nick está chupando e lambendo os mamilos do Timo, que se contorce e geme na cama. De repente ele segura a cabeça do Nick e o beija. Sim, Nick já está completamente nu. Consigo ver meio corpo dele inclinado sobre o Timo, beijando, falando baixo coisas que eu queria conseguir ouvir e se esfregando nele. Que tortura. Eu quero... entrar. Droga. Eu quero interromper. É só isso que eu faço na vida deles, pelo jeito.

Estou pronta para me afastar quando ouço a voz do Timo, não muito alta, mas clara o bastante.

 

— Me fode.

 

Fecho os olhos por um instante a apoio a mão na parede oposta. Quase me dá vontade de rir. Estou sendo testada pelas forças superiores, só pode ser isso. Ouço distintamente o som da gaveta da mesinha batendo, ao ser fechada com força, e abro os olhos. Ok. Isso foi a camisinha. Já estou muito além do ponto de fingir para mim mesma que não vou assistir essa trepada até o fim. O jeito como o Timo beija o Nick enquanto ele coloca a camisinha, eu não consigo nem piscar, nem fechar a boca. A esta altura até o jeans eu já devo ter molhado. É a coisa mais linda os dois gemendo baixinho, juntinhos, meu Deus, que droga... O quanto eu amo os dois chega a doer meu coração.

 

E bem na hora que eu penso isso e sinto uma coisa presa na garganta, que me dá até vontade de chorar, Timo sorri enquanto Nick se ajeita por trás dele e o abraça e beija seu ombro. Porra. Eles são lindos. E são meus. Eu acho. Eu espero.

 

Não. Não, Bianca, pare com isso. Eu não vou chorar enquanto estou com tesão. Isso é demais pra mim, eu me recuso.

 

O ritmo deles vai calando as palavras e até o som dos gemidos vai se abafando num ofegar contínuo que me hipnotiza. Eu já não consigo pensar direito. Aperto minha mão entre minhas coxas por cima da calça porque... porque não consigo me conter mais. Estou quase enlouquecendo de necessidade de me tocar, de ser tocada, de qualquer coisa que não seja só perder meu fôlego em pé no corredor. Por muitos minutos é só isso que acontece. Eles dois na cama, fodendo de conchinha, e eu no corredor me segurando para não gemer. Inclino o pescoço um pouco para o lado para acompanhar a mão do Nick na barriga do Timo quando, finalmente, depois de muitos minutos, consigo distinguir as palavras na voz dele, que desta vez não sussurra.

 

— Sabe o que seria muito bom agora? — diz Nick, numa voz convidativa, enquanto acaricia a barriga do Timo, brincando de chegar no pau, mas nunca chegando.

 

— Hum? — É só o que o Timo consegue emitir.

 

— Ajuda.

 

— A... Ajuda?

 

Uma pausa. Um silêncio curto. Minha mão ainda está entre minhas coxas, mas eu já não me mexo.

 

— Eu não posso te foder e te chupar — diz Nick.

 

Meu queixo desaba. Devagar.

 

— Ah...

 

Acho que o Timo não está conseguindo pensar direito.

 

Não julgo.

 

Infelizmente, eu consigo.

 

— Você bem que gostaria, não gostaria?

 

Dou um passo para trás.

 

Não é possível. Ele não poderia...

 

— Me diz o que você está pensando.

 

Às vezes o Nick diz essas coisas na cama como se fosse um comando. Me arrepia todinha. Nunca é nada que me deixe desconfortável, é só... uma provocação, eu nem sei explicar. Ele me desconcerta.

 

E eu adoro.

 

Timo dá um risadinha baixa que é quase um gemido.

 

— Você sabe o que falta aqui, não sabe?

 

— Sei — Timo finalmente diz.

 

— Fala, Timo. Vai. Fala.

 

Por um segundo longo demais, eu não respiro.

 

E então Timo fala:

 

— Bianca.

 

Acho que vou desmaiar.

 

— Bianca.

 

Só que agora não foi o Timo. Foi o Nick.

 

Merda. Merda. Merda.

 

— Bianca — ele repete. — Entra aqui. Agora.

 

— O quê? — Ouço a voz confusa do Timo do lado de dentro do quarto enquanto decido o que fazer.

 

Não que eu tenha muitas opções. Se tem uma coisa que eu não sou é covarde. Por mais que eu não me orgulhe de ter passado os últimos sei lá quantos minutos espiando eles transarem, empurro a porta e entro. Mal consigo olhar para a cama.

 

— Fecha a porta, por favor, Bia. Era o que eu devia ter feito quando entrei aqui.

 

Mortificada, fecho a porta, ainda sem erguer o olhar para eles.

 

— Desculpa — começo.

 

— Não, não, não. Você está fazendo tudo errado, Bia.

 

Confusa, olho para o Nick. Ele está sorrindo. Esfrega o nariz no pescoço do Timo, olhando para mim enquanto o beija ali.

 

— Não era assim que você deveria reagir ao pegar seu marido na cama com outro cara.

 

— Nick...

 

Acho que o Timo pretendia reclamar ou protestar, mas tá difícil pra ele conciliar os dois moods: trepada em andamento com um, DR iminente com outra.

 

— Eu vou sa...

 

— Se você sair daqui eu vou ficar tão decepcionado. — Nick faz um beicinho. — Achei que você tinha aceitado nosso convite, quando entrou.

 

— Nick, não força — diz Timo, fechando os olhos.

 

Acho que ele também está evitando me encarar.

 

— Ué, ela pode sair se quiser. Você vai sair, Bia? — pergunta Nick.

 

Eu não respondo.

 

Nick volta a se movimentar lentamente atrás do Timo, indo e vindo.

 

— Afinal posso estar enganado, mas eu realmente achei que o que você queria era entrar.

 

Timo geme.

 

Ah, caramba. Eles vão... continuar. Na minha frente.

 

Não é a primeira vez, droga. Mas é a primeira vez que eu estou vestida e fora da cama.

 

Ok. Então é isso que está errado na situação? Dá pra resolver num instante.3

 

Abro o botão e o zíper da minha calça e começo a tirar a roupa. Timo finalmente olha para mim. Um sorrisinho brinca nos lábios dele antes de ele fechar os olhos e suspirar. Minha resistência está por um fio. Afasto a última fagulha de constrangimento e me aproximo. Quando chego perto o suficiente, Timo estende a mão e pega meu pulso. Ele me puxa para a cama e eu ainda estou de calcinha e blusa. Ele me beija e segura minha bunda. O pau dele se mexe sozinho e roça na minha coxa, deixando um rastro úmido. Sinto seus dedos afastando minha calcinha e solto um gemido dentro do beijo, aliviada, quando ele desliza dois dedos entre as dobras da minha boceta.

 

— Meu Deus, Bi... Você tá encharcada... — ele sussurra.

 

— Ela tá? — Nick reage na hora, soando muito interessado.

 

Timo simplesmente tira os dedos da minha calcinha e, sorrindo para mim, estica a mão para trás, por cima do ombro, e oferece os dedos ao Nick. Que prontamente aceita e chupa seus dedos, fechando os olhos com uma expressão de prazer no rosto.

 

Neste momento eu só consigo pensar que tenho muita, muita sorte na vida.

 

Parece que a capacidade de Nick de ser sarcástico e fazer comentários provocantes já dobrou a esquina faz tempo. Ele começa a foder mais forte e eu me inclino para chupar o Timo, porque não me esqueci nem por um momento que fui convidada a participar com uma missão, da qual não tenho intenção nenhuma de me esquivar. Por alguns momentos, ninguém diz nada, nenhum murmúrio, só a respiração do Timo e os gemidos ritmados do Nick. Timo enfia os dedos pelos meus cabelos mas não segura com força. Quando percebo, pelos movimentos e sons, que Nick está gozando, eu abro os olhos e olho para o Timo. Ele está olhando fixamente para mim. Minha nossa. Não consigo desviar o olhar. O único som de fundo é Nick ofegando no alívio do orgasmo, mas eu não consigo vê-lo desta posição. A verdade é que estou chupando sem pressa. O olhar do Timo me diz que não é assim que ele quer gozar. Eu o conheço. Depois de alguns minutos me encarando, ele diz, sem desviar o olhar.

 

— Nick. Chupa ela.

 

Não sou de engasgar com um pau na minha boca, mas quase fui com Deus desta vez. Timo não é de fazer essas coisas. Não vou reclamar. E aparentemente o Nick também não vai, ele vai obedecer. Até os pequenos ajustes de posição necessários se passam em silêncio obediente. Parece que a gente está se dirigindo uns aos outros. Eu não estou achando nada ruim. Nick tira minha calcinha. Timo tira minha blusa. Ambos me acariciam preguiçosamente, roçam as pontas dos dedos pela minha pele até que eu fique tonta. Eles me deixam só de sutiã na cama, zonza. Tento voltar ao que eu estava fazendo — eu meio que abandonei o Timo nos últimos minutos — mas quando Nick me lambe eu simplesmente quico na cama. Meu Deus. Eu tô muito, muito perto. Isso não é gemer, eu tô fazendo um escândalo.

 

— Esse treino vocal tá me deixando com mais tesão — Timo sussurra, e eu quase consigo rir, mas não consigo.

 

Ele chupa minha orelha, me chama de gostosa no meu ouvido e segura minha mão em volta do pau dele porque eu não tenho mais coordenação motora nem para uma punheta decente. Meu braço está mole. Eu toda estou mole. Nick está me torturando. Ele não está fazendo do jeito certo para eu gozar, eu sei disso, mas não reclamo, eu deixo, eu estou gostando, merda. A língua lenta demais, lambidas longas demais, chupadas curtas e sem consistência, sem ritmo. Sem conseguir me impedir, solto um ganido de frustração, e o desgraçado dá uma risadinha.

 

— Timo. Fode ela.

 

Deixo a cabeça tombar para trás, fechando os olhos, e sorrio.

 

Ah, sim. Por favor, sim.

 

— Era isso que você queria, não era? — pergunta Nick.

 

— Era — admito.

 

Sinto Nick chegar perto de mim. O hálito do seu riso cheira a sexo e esquenta meu rosto.

 

— Eu não estava perguntando para você, Bianca.

 

Abro os olhos e finalmente consigo rir. Ele ri junto e me beija, me dá meu gosto, se enrosca na minha língua e me envolve num beijo que me deixa tonta. A próxima coisa que sinto já é o Timo começando a me penetrar.

 

Ah. Minha nossa.

 

Mal percebo quando Nick se afasta da cama. De repente somos só nós dois. Timo passa um dos braços por baixo de mim e encaixa a mão segurando firme no meu ombro, como se fosse sua âncora. E então me fode. Com força. Rápido. O peso do seu corpo me imprensa contra o colchão, minha respiração sai pela boca, em golfadas, às vezes junto com o nome dele. É arrebatador, é intenso e é muito, muito eficiente. Ambos estamos no limite. Nenhum de nós dois precisa de muito para gozar neste momento. Os segundos voam e se acumulam sobre nós dois até explodirmos juntos e ele desabar em cima de mim, sem fôlego.

 

Levo um tempo enorme para conseguir abrir os olhos. Timo escorrega para o lado e eu sinto a poça de suor que ele deixou na minha barriga receber uma lufada de ar fresco que me arrepia. Meus mamilos estão tão sensíveis sob o sutiã que o vento faz doer. E ninguém nem tocou neles.

Timo respira pesadamente ao meu lado. Busca a minha mão e segura, em silêncio.

 

— Sabe do que eu sinto falta numa hora dessas?

 

Viro na direção da voz do Nick. Ele está de cueca, sentado na poltrona, sorrindo de leve e olhando para nós dois. Uma das mãos no braço da poltrona, a outra pousada levemente sobre o pau, que nem está duro, só um pouco. Ele nem vai investir nisso. Parece muito satisfeito, na verdade.

Pisco devagar, ainda ofegante.4

 

— Fumar — ele diz, recostando a cabeça para trás e fechando os olhos.

 

— Nick...

 

— Não se preocupe, Bia, não vou fumar. Nem tenho cigarros em casa.

 

— Não é isso...

 

Ele balança a cabeça devagar.

 

— Não comece. Foi lindo, não estrague esse momento.

 

— Tá bem, foi lindo, mas eu não devia...

 

— Bia. Vem aqui.

 

Exalo, cansada.

 

— Você está muito mandão hoje.

 

— Estou me aproveitando do seu sentimento de culpa.

 

— Que, segundo você mesmo, é desnecessário — retruco.

 

— Mas está aí, não está? Se está, vou usar. Venha. — Ele me chama da poltrona com um aceno.

 

E eu vou. Me levanto da cama e vou até ele, só de sutiã.

 

— Senta aqui. — Ele põe a mão na própria coxa e esfrega de leve.

 

Eu começo a rir.

 

— Você é ridículo.

 

— Exagerei? Fui longe demais, amor? — ele se pergunta, inclinando a cabeça e sorrindo para mim.

 

Eu sento no colo dele.

 

— Foi.

 

— Mas você veio.

 

— Sou uma tola.

 

— Isso é tudo que você não é — diz ele, finalmente sério. Acaricia meu rosto, bem perto da orelha, e ajeita meus cabelos. — Mas está exausta de um ano muito difícil, de uma mudança muito grande, e parece que isso fez você ficar um pouco, só um pouquinho, tola.

 

Eu respiro fundo e seguro o ar.

 

— Eu amo você. Amo. Você entende isso? Por favor, diz que entende, porque não sou muito bom em dizer isso de muitas maneiras diferentes e criativas. Você tem que acreditar, senão...

 

— Nick, eu sei...

 

— Nada do que você me ouviu dizer...

 

— Não diga que não é verdade — protesto.

 

— Não vou dizer que não é verdade. É verdade, sim — ele diz. — Mas nada do que falei significa que não te amo, merda.

Baixo os olhos. Ele passa os dedos pela minha testa, limpando o suor que se acumulou.

 

— Também te amo. Amo vocês dois, muito. E sei que, quando cheguei, atrapalhei algo que vocês vinham vivendo juntos aqui. E não sei o que fazer com isso — confesso. — Porque vocês merecem ter o que tiveram sozinhos e não merecem perder o que...

 

— Posso falar uma coisa? — Timo nos interrompe.

 

Ambos olhamos para ele, que morde o canto do polegar, sentadinho no meio da cama, sem roupa e de pernas cruzadas.

 

Ele não espera nossa autorização. Só nossa atenção basta.

 

— Nós estamos começando uma vida nova aqui, nós três. — Timo respira devagar, pensando. — No início, nós três não éramos três. Éramos dois. E dois.

 

— Isso dá quatro. Não sabia que você era tão ruim de matemática, Alteza.

 

— Éramos dois casais. Você entendeu, seu chato.

 

Timo se arrasta na cama, sentando na beirada, mais perto de nós.

 

— Eu tinha coisas com você que eram só nossas — ele diz ao Nick. Então olha para mim. — E com você também, Bi. Nossas piadas internas só funcionam para nós dois. A gente tem o nosso jeito de falar, de se beijar, de se tocar, a gente tem a nossa sintonia.

 

Eu assinto.

 

— Quando nos tornamos nós três, bem... Eu acho que ficamos meio inebriados com isso.

 

— Não vou negar — digo, arqueando as sobrancelhas.

 

— Nunca trepei tanto na vida como naqueles dias em setembro de 2019 — Nick diz, sonhador. — Ah, exceto talvez... janeiro de 2020.

 

— É mesmo? — Timo pergunta.

 

— Vocês dois têm uma ideia fantasiosa sobre minha vida sexual pregressa.

 

— Foi você que nos deu essa ideia — acuso, cruzando os braços.

 

— É. Bem, faz parte. — Nick dá de ombros. — Mas é isso. A satisfação sexual abençoada que eu tive naquelas semanas é sem parâmetros na minha vida. Podem se orgulhar.

 

Eu dou uma risadinha e ele me abraça.

 

— Mas o fato é que o Nick continuava viajando muito — Timo continuou. — Depois que vocês dois ficaram juntos pela primeira vez, Nick esteve no Brasil só duas vezes. A minha vida era com você, Bi.

 

Ele tem razão.

 

— E então veio a pandemia — digo.

 

Timo assente.

 

— E você teve com Nick o que antes teve comigo.

 

Ele assente de novo, e então diz:

 

— E é isso que nós temos que ter.

 

Eu pisco, confusa.

 

— Você quer dizer que não podemos morar juntos? Os três? — pergunto, confusa.

 

Não quero isso.

 

— Não! — Timo retruca rapidamente. — Não, por Deus, não. Eu não estou falando de família. Somos uma família, nós três e o Gui. Isso não vai mudar.

 

Respiro aliviada.

 

— E somos um trisal. Mas a gente só tem feito coisas de casal juntos, os três. A gente precisa... se conectar separadamente também.

 

Eu olho para o Nick e ele olha para mim.

 

— Foi por isso que você veio para casa mais cedo hoje? Quando achava que eu ainda estaria na rua?

 

Ele exala.

 

— Acho que sim — admite.

 

— Isso não precisa ser roubado — diz Timo. — Ninguém está tirando nada de ninguém.

 

— Ele tem razão — digo ao Nick.

 

— Ele tem.

 

A gente fica se encarando por alguns segundos. Passo os dedos pelos cabelos dele e ele pisca lentamente, quase sorrindo. Depois belisca meu queixo de leve, com aquele olhar quente e preguiçoso.

 

— Me leva pra jantar? — peço. — Você conhece os melhores lugares. Eu quero me arrumar.

 

Nick sorri.

 

— Achei que você estava com medo de sair, de ir em um restaurante.

 

— Estou ainda, um pouco. Mas quero ir com você. Está uma temperatura tão agradável, podemos ir a um lugar aberto. Não podemos?

 

Ele faz que sim, sorrindo para mim.

 

— Isso. Vão mesmo — diz Timo, se deitando na cama. — Saiam do meu quarto, preciso de um tempo para descansar. Tipo assim, a noite inteira.

 

Nick dá uma risada relaxada.

— Vocês acabaram comigo — resmunga Timo, de olhos fechados e largado na cama. — Se forem transar quando voltarem do restaurante, não me chamem. Vou trancar a minha porta.

 

— Então não use o pijama que eu te dei — aviso, apontando a camiseta pendurada no gancho atrás da porta, onde se lê "Se sentir tesão, me acorda".

 

Timo ri.

 

— O Gui vai dormir na casa da minha irmã? — pergunta ele.

 

— Não. Alguém tem que ir buscá-lo antes das nove, foi o combinado.

 

— Pode deixar que eu vou — ele diz. — Vou tomar um banho, descansar e depois pegar a criança. Vocês saem e se divertem.

 

— Eu estou adorando a divisão de tarefas — diz Nick. — E você, Bia?

— Hum... Pode ser que eu esteja me apaixonando pelo amante do meu marido. Ele é muito prestativo, além de ser gostoso e foder bem demais.

Timo dá uma gargalhada, Nick começa a rir também e num instante estamos os três rindo juntos.

É bonito mesmo. E talvez nem seja assim tão complicado quanto eu pensei.

 

*

 

1Umbrella (Acoustic), Rihanna.

2Love On The Brain, Rihanna.

3Only Girl, Rihanna.

4Love On The Brain, Rihanna.