"Há Vagas" - conto extra nº 1

ATENÇÃO: SÓ LEIA SE JÁ TIVER TERMINADO DE LER O LIVRO "HÁ VAGAS"

Continuação imediata do epílogo

setembro 2019 ~ São Paulo

Timo

 

1Ele pode até me chamar de príncipe. Mas neste exato momento, neste corredor, puxando Bianca e Nick pela mão em direção ao quarto, eu me sinto um rei.

Deve ser impressão minha, mas parece que tudo está em câmera lenta. As vozes dos dois, os risos e provocações murmuradas, tudo parece subitamente distante. E eu sorrio devagar, vendo a luz que entra pela janela do nosso quarto iluminar uma faixa do piso do corredor.

Não estou surpreso; estou feliz. Ansioso como a gente fica quando desce do avião num destino muito aguardado mas ainda desconhecido. Era algo que eu sabia que ia acontecer, era questão de quando. Da última vez que Nick esteve no Brasil era impossível não sentir a eletricidade no ar entre os dois, indo e vindo em ondas de desejo. A tensão sexual era impossível de disfarçar. Os olhares furtivos eram minha parte favorita. Nick olhava para Bianca quando sabia que ela não ia notar, mas não parecia se preocupar muito comigo. Se eu visse, paciência. E eu via. Conheço aquele olhar, sabe? É mais do que desejo, Nick encara uma pessoa que ele quer levar pra cama com um interesse quase científico. O olhar dele parece um scanner, dá pra vê-lo mudando de ângulo, de foco. Ele engole toda a imagem daquela pessoa, cada detalhe. Ele a devorava, mas fazia isso saboreando. É bonito demais de ver. Uma vez ele virou pra mim bem na hora e me pegou no flagra. Quer dizer... Na verdade ele percebeu que eu o tinha pego no flagra, né? Apenas arqueou as sobrancelhas pra mim e ergueu um ombro como se dissesse "que é que eu posso fazer?". Eu ri.

Bianca é mais discreta, era difícil pegá-la olhando para o Nick, tenho certeza que ela tomava um cuidado muito específico para que eu também não percebesse. Por isso mesmo era ainda mais gostoso quando eu conseguia captar algum sinal dela. Seus olhares eram sonhadores e cobiçosos. Olhando o Nick, a Bianca parecia uma criança olhando uma vitrine de confeitaria. Inclusive quando eu e Nick nos beijávamos ou só ficávamos abraçados, trocando carinhos, eu sentia o olhar dela. Mas a Bianca é muito de toque. Os dois na cozinha lavando e secando a louça, na área de serviço arrumando roupas, na sala vendo televisão, eu fazia questão de me aproximar em silêncio cada vez que ouvia as vozes dos dois em algum cômodo da casa. E aí era só esperar. Na primeira boa oportunidade, Bianca o tocava e esperava. Uma mão no braço ou no ombro. Um teste. Será que ele ia se esquivar?

Claro que não, Bi. Ele tá na sua.

 

Uma noite eu a vi prender a respiração, na expectativa. Estavam na janela da sala tirando fotos de um pôr do sol especialmente bonito e eu só os vi de costas, no momento em que a mão dela roçou na dele e ali ficou. E os antebraços se encostaram. Bastava que ele se virasse e aconteceria um beijo. Eu senti isso com tanta força que me afastei, voltando pelo corredor sem fazer barulho, com o coração quase tão disparado quanto está agora. Fui para o quarto reserva e fiquei lá, sentado na cama, tentando respirar. Mas não aconteceu nada.

 

Ah, eu pensei em interferir, sim. Pensei em perguntar pra ele, ou pra ela. Com certeza não havia nenhuma regra que me impediria de fazer isso, não seria antiético para os nossos padrões. Mas eu sentia que não deveria. Que qualquer interferência, qualquer tentativa de ajudar ou acelerar o processo apenas atrapalharia.

E eu queria tanto que desse certo. Eu queria tanto isso aqui.

 

Só desejar isso já é interferência? Eu me perguntei muitas vezes, enquanto minhas fortuitas observações brincavam de ship x ciúme dentro do meu coração. Sério. Eu conseguia ao mesmo tempo torcer para acontecer e sentir ciúme. Faz sentido? Não. Acho que não. Mas eu vou mentir pra quê? Poliamor é troço confuso pra cacete. Estar na cama com um deles, e pensar no outro que está dormindo no quarto reserva... Sempre tinha um momento em que esse pensamento me alcançava. Às vezes era no meio do sexo — aí confesso que era até bom — mas na maioria das vezes era depois. Eu queria nós três juntos na cama, sempre quis.

 

Será que eu tinha pensado nisso desde o início? Bem, se o que eu tô chamando de início é aquela manhã no camarim do teatro, nove meses atrás, quando Bianca e Nick literalmente me puseram contra a parede, hum, então a resposta é "sim". Ali, contra a parede, eu pensei em transar com os dois ao mesmo tempo. Quem pode me julgar? Do jeito que eles me atacaram... Antes disso, acho que não. Mas depois daquela manhã, a possibilidade não saiu mais da minha cabeça. Eu entendia, porém, que aquilo não dizia respeito somente a mim. Não era sobre eu desejá-los ou sobre os dois me desejarem. Precisava acontecer entre eles. E sobre essa parte que dizia respeito só a eles dois eu não tinha controle algum. Podia acontecer, mas podia nunca acontecer.

Estou muito feliz que aconteceu. Mas é curioso... Quando eu imaginava (e eu imaginei muito), não era bem assim...

 

Fui eu que os puxei pelo corredor, né? Até que foi. Mas, assim que entramos no quarto, Bianca segura o Nick pelos dois braços, gira com ele e o joga na cama. Ele cai rindo e me lança um olhar safado, mas é muito rápido. No instante seguinte, seus olhos já estão completamente fixos na mulher que sobe na cama montando em cima dele. Suas mãos deslizam para cima e para baixo pelas pernas dela em volta do seu corpo enquanto ela se inclina para beijá-lo.

 

Então é isso, né? Eu que lute.

 

Um formigamento se instala na base da minha barriga. Estou com uma vontade estranha de rir e sei que é de nervoso. Certo, eu não esperava ficar nervoso justo agora, sou uma decepção para mim mesmo. Eu ainda tô praticamente na porta, porra, e completamente vestido, até de sapato. O Nick tá de cueca na cama e a Bianca tá de vestido, mas... É, pelo que eu posso ver daqui, conforme ele alisa as coxas dela, erguendo o vestido cada vez mais, ela está sem calcinha. Deve estar desde que eles transaram. E eu não sei se foi aqui na cama, na cozinha, na sala. O beijo se intensifica rapidamente enquanto eu fico imaginando Nick e Bianca transando em todos os cômodos da casa e eu... Bem, eu tô de pau duro, é claro. Minha garganta seca e, por um momento, eu chego a pensar que ficar aqui na porta mesmo e assistir nem seria um mau negócio. Talvez eu só precise abrir a calça.

 

Como é que eu passei da fase de fantasiar os dois me pegando na nossa cama para a fase de me contentar com bater uma punheta discretamente no canto do quarto enquanto vejo os dois se pegando na nossa cama?

 

Ah, caramba... As possibilidades desse casamento são realmente vastas.

 

No meio do beijo, Nick ergue o corpo e puxa o vestido de Bianca para cima, despindo-a. Beija o pescoço dela enquanto ela se esfrega nua no colo dele com vontade, indo e vindo. A expectativa retumba no meu peito e a sensação atordoante de câmera lenta retorna quando a cabeça de Bianca tomba para trás e a boca de Nick desce para os seios dela. Algo que ele consegue fazer com muito mais jeito do que eu, porque eu sou meio alto demais pra Bianca, tenho que me curvar bem mais.

 

É quando eu percebo que...

 

Eles combinam.

 

Meu coração quase para quando eu me dou um minuto para vê-los, só eles dois, sem me implicar demais na situação, e chego à incontornável conclusão: Nick e Bianca combinam. Eles são tão bonitos juntos. Neste instante, cada um dos dois se torna tão elo quanto eu nesta cadeia que somos nós. Não existe mais uma só ponta a unir nosso triângulo imperfeito. Não existe mais o levemente incômodo conceito de "eu no meio". Hoje a cadeia se fechou. Tudo se completou. Estamos juntos não mais por minha causa, porque eu amo os dois e porque os dois me amam. Mas sim porque Nick nos ama, porque Bianca nos ama, nós dois. Nós três. Agora estamos completos.

 

— Camisinha — Bianca pede.

 

Por um momento eu penso que ela está pedindo para mim.

E eu me importaria de ser garçom deles nessa trepada?

Não.

 

Mas Nick estica a mão para a gaveta e pega uma camisinha.

 

— Tá precisando repor, hein? — Nick avisa, tateando dentro da gaveta. — Agora isso aqui vai acabar rapidinho. — Ele olha para mim e sorri quando estende a camisinha para Bianca, que começa a tirar a cueca dele.

 

E ele não tira o olho de mim. Me encara durante todo o processo de tirar a cueca e colocar camisinha. Mesmo enquanto seu sorriso gradualmente se desfaz, dando lugar ao olhar quente e nublado de prazer enquanto Bianca se encaixa e desce no pau dele. Ele simplesmente não quebra contato visual comigo. Eu não consigo nem me mexer. De costas pra mim, Bianca suspira e se apoia no peito dele. Quando ela começa a subir e descer, Nick não consegue mais manter os olhos abertos. Com um gemido, ele fecha os olhos devagar.

 

— Tira essa roupa, Timo — ele murmura. — Você vai acabar tendo um derrame se ninguém der atenção a esse negócio aí dentro da sua calça.

 

Começo a me aproximar devagar. Primeiro tiro os sapatos, sem desviar os olhos dos dois na cama nem por um momento. E agora a calça, porque realmente tá atrapalhando.

 

— As meias. Não sobe na cama de meias, você sabe que eu broxo.

 

E a Bianca de repente começa a rir.

 

Eu olho pra ela. E tô rindo também.

 

Porra, Nick. Eu te amo, sabia?

 

Ele tem um dom, né? Sei lá, tudo parece tão leve com ele, tão bom.

 

— Ele broxa mesmo? — pergunta Bianca, com um olhar desconfiado.

 

— Que nada. É só drama.

 

Ela fecha os olhos.

 

— Hum. Que bom.

 

Ela rebola devagar no pau dele e os dois gemem em uníssono.

 

Ah, minha nossa. Subo na cama sem esperar nem mais um segundo, ainda de cueca e camiseta — mas sem meias! — e Nick sorri pra mim, ali todo esparramado na cama e sendo cavalgado pela Bianca.

 

— Que saudade de você — ele me diz suavemente.

 

E aí eu me derreto todo, todinho por ele. Nick segura minha camiseta, me puxa e me beija, me aninhando no seu braço, respirando fundo. Seu corpo vibra quente contra o meu, parece que a cama toda tem vida. Nick segura minha nuca e invade minha boca com a língua, como se precisasse me engolir. Seu gemido ecoa fundo na minha boca e minha ereção se mexe sozinha dentro da cueca. Começando a me sentir já desesperado de desejo deslizo minha mão pelo corpo dele até que de repente sinto os dedos da Bianca espalmados em seu peito. Meu olhar segue as mãos e busca o rosto dela.

Com as pálpebras semicerradas ela me encara, mantendo o movimento ritmado de sobe e desce, sem pressa. Um gemido baixo escapa entre seus lábios e ela quase fecha os olhos mas não fecha. É muito sensual. Suas pálpebras tremulam encobrindo de leve o seu olhar e ela enterra os dentes no lábios. Naquele momento sei que preciso beijá-la. Me arrasto de joelhos na cama e toco seu rosto, tão perto do meu. Me inclino para ela, mas, antes que nossos lábios se toquem, Bianca sussurra bem baixinho, só pra mim. Em português.

— Você tá chateado? Comigo? Ou com o Nick?

Vejo a preocupação no fundo do seu olhar. Acaricio seu rosto, sorrindo, e ela sorri também, entendendo minha resposta antes que eu a dê.

 

— Não. Não mesmo.

 

— Te amo, Timo — ela murmura quando roço meus lábios nos dela.

 

E a gente se beija. Um beijo lento e profundo. Sinto que ela sorri e olho pra ela.

— A sua boca tá com o gosto do beijo dele — Bianca murmura de olhos fechados.

 

Com essas palavras, ela ateia fogo no meu sangue. Seguro sua cabeça e beijo sua boca com desespero. Minha mão desce pelo corpo dela e e ela geme quando aperto seu seio, mas continuo descendo até que eu alcance seus pelos. Na hora que eu toco seu clitóris, rodeando-o com o dedo, ela reage, estremecendo, e eu começo a masturbá-la enquanto ela sobe e desce, cavalgando sobre ele. Sinto a mão do Nick na minha bunda, me alisando, puxando a minha cueca e procurando alcançar meu pau. Faço tudo que posso para facilitar o acesso. Ele começa a me masturbar, meio sem ângulo para isso, mas logo ele se ergue sentado, com uma mão no meu pau e a outra em volta da cintura da Bianca, puxando-a mais para perto. E aí ele me beija. Nos beija, porque eu ainda estava beijando a Bianca. E agora... Ah, droga, não importa que isso soe pouco criativo, mas isso aqui, sim, era uma das minhas maiores fantasias: o beijo triplo. Misericórdia. Eu vou morrer de tesão. Beijo triplo é uma bagunça, não vou mentir, mas mesmo assim eu recomendo vivamente. A dança de línguas, movimentos quase aleatórios, as bocas relaxadas e meio abertas, por onde escapam suspiros e gemidos. Isso não é sexo. É arte. Meu coração bate com tanta força no meu peito que eu me sinto tonto e sem ar.

Mas eles dois estão quase lá. O beijo não dura muito. Bianca segura meu braço e prende a respiração. O orgasmo estremece seu corpo e, trêmula, ela se paralisa agarrada a mim e montada sobre o Nick, que só precisa de mais algumas estocadas e grunhidos para segurá-la com mais força, empurrar mais fundo e gozar também, enterrando o rosto no pescoço dela. Eu acaricio os cabelos dele e ele respira fundo algumas vezes seguidas. E murmura baixinho, contra a pele dela, mas eu ouço.

— I love you. — Ele busca o ar, inspirando bem fundo. — Both of you.

Sinto sua mão apertar a minha e aos poucos ele afasta o rosto e olha para mim, ainda levemente ofegante. A gente se encara assim por alguns instantes até que Bianca roce os dedos no meu rosto e beije o canto da minha boca, me fazendo fechar os olhos. Sinto a boca do Nick no meu pescoço, na minha garganta, e, a partir daí, eu perco um pouco a noção da ordem e do ritmo das coisas. Sei que vou caindo deitado na cama lentamente e começo a perceber, desconcertado, que eu até consigo distinguir quem está beijando a minha boca ou passando a mão na minha barriga, mas o meu pau é incapaz de distinguir boca ou língua. Não sei se faz parte do jogo, mas não abro os olhos. Não acho nem que isso seja uma decisão, eu simplesmente... não consigo. É bom demais, é estímulo demais. Cada sensação que eles me provocam vem acompanhada de uma surpresa, uma tentativa de adivinhar quem é. Um arranhar de unhas, cócegas que aqui são cabelos, mas ali acho que é a barba. Meu Deus. Isso deve ser a morte que eu pedi a Deus.

Eu só espero não morrer agora.

O som dos meus gemidos ofegantes enche o quarto e o cheiro adocicado de suor e sexo nos envolve numa nuvem quente. Tecnicamente é um boquete estranho e sem ritmo, mas perto do final um dos dois pega o leme — graças aos deuses — e quem fica à deriva sou eu. É rápido e intenso pra caralho. E eu não sei na boca de qual dos dois eu gozei.

Ainda estou respirando com muita dificuldade quando ouço Nick sussurrar no meu ouvido:

— Você não sabia mais quem era quem, não é?

Tento rir, não consigo, mas a Bianca consegue. Sinto a risadinha dela aquecendo meu rosto enquanto Nick beija minha orelha, chupa o lóbulo e mordisca. Socorro.

E então Bianca beija minha boca e eu sinto o calor e o gosto em sua boca. Hum... Era ela. Meu corpo pesa na cama, relaxado e satisfeito. Ela me beija devagar, se aninhando no meu braço direito, enquanto Nick faz o mesmo no esquerdo. Então viro para ele e ele me beija. Não, peraí. Era ele? Era ele, sim. Não era? Ah, meu Deus, eu tô confuso. Sinto que os dois me abraçam e seus braços se cruzam e se encontram sobre a minha barriga.

 

E adormecemos assim, agarrados e felizes.

 

*

 

 

 

 

 

1Umbrella, Rihanna (versão original ou acústica).