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Aniversário de 18 anos

fevereiro de 2003

ESTE CONTEÚDO EXTRA SÓ É RECOMENDADO PARA QUEM JÁ LEU "UMA FONTE DE VENTURA"

Eu tinha que reconhecer que a mamãe tinha razão. Aquele salão de festas no fim das contas era mesmo a melhor opção. Tava precisando de uma pintura, mas no geral estava bonito, bem arrumado. Eu estava satisfeita.

– O teu pai te ligou, pelo menos? – mamãe perguntou, arrumando uns guardanapos sobre as mesas.

– Ligou, mãe, hoje cedo.

– E ele vem? – Ela tentava parecer desinteressada.

Como se eu não a conhecesse.

– Claro que vem, mãe.

Era o primeiro evento familiar em que o papai e o Alexandre iam se encontrar, depois de mais de três anos. O Alexandre tinha voltado ao convívio familiar há mais ou menos um mês, mas papai estava viajando. E agora, bem no meu aniversário, tcharan!, o esperado encontro. Temido.

O que eu esperava do esperado encontro? Eu esperava do fundo do meu coração que não saísse faísca. Porque eu estava eufórica com o fato de que o Alexandre ia estar de novo em um aniversário meu. Isso não acontecia desde os meus 14 anos. Eu não gostava nem de me lembrar da merda que tinha sido aquela festa de 15 anos, que eu tinha desejado tanto, por tantos meses. Mas depois que o Alexandre saiu de casa, tudo perdeu a graça. Eu não queria mais festa, não queria mais nada. A despeito de mim, teve festa. No fundo eu passei a noite inteira esperando que ele aparecesse, ligasse, sei lá. Ele não apareceu nem ligou. E foi horrível.

Poucos meses depois dos meus 15 anos, meus pais se separaram. O que quer dizer que no intervalo de mais ou menos uns seis meses, a população da casa foi reduzida à metade. Uma metade unicamente feminina, meio órfãs, meio viúvas, muito sozinhas. Foi difícil aguentar a mamãe no começo. Tanto choro, tanta lamúria. Eu era nova demais pra isso. Me contaminava. Me esmagava.

Os convidados foram chegando. Mamãe chamou uns amigos dela e eu chamei quase todo mundo que eu conhecia, do colégio, vizinhos, do curso de inglês. Eu tinha um certo medo que a festa ficasse super caída, então fiz isso. Agora estava achando tudo lotado demais. A música já tinha começado e era boa. Papai chegou e eu fiquei mais tranquila, talvez porque lá no fundo eu tivesse aprendido a não confiar 100% no que meu pai prometia. Mas ele foi. Me abraçou, me deu presente, cumprimentou a mamãe... Eu não entendia esses dois de jeito nenhum, sabe? Às vezes parecia que se davam até bem, tinham conversas civilizadas, tudo certo. Outras vezes, a hostilidade no ar era palpável. Naquela noite, nem tanto ao mar nem tanto à terra. Ao fim da noite, depois de beberem, já estariam conversando animadamente, eu podia apostar.

Faltava o Alexandre. Olhei o relógio de pulso. 21h21. Ok, ele não estava ainda assim propriamente atrasado, ou não muito. Eu é que estava ansiosa. Havia uma sensação meio eletrizante de esperar por ele. Sabendo que ele ia. Era uma espera diferente das outras esperas.

– Que horas o Alexandre vem, mãe?

Mamãe riu.

– Você tá louca pra ter o seu irmão colado em você no seu aniversário, né?

Senti as bochechas queimarem e minha barriga tremeu.

– Eu só queria... saber.

– Ele me ligou há mais ou menos uma hora dizendo que estava entrando em casa, tinha ido buscar o seu presente não sei onde, por isso demorou. Deve estar chegando – ela disse, sorrindo, e me deu um beijo no rosto, indo cumprimentar alguém.

Algumas amigas já tinham chegado, alguns amigos também, já tinha gente suficiente para que os primeiros corajosos começassem a dançar. E é claro que logo tinha um, uma, ou dois, ou três me puxando pra pista pra dançar Skank. Não resisti muito, eu tava mesmo a fim de me divertir. Na verdade eu tinha decidido solenemente na frente do espelho, depois de pôr aquele vestido (como é que eu tinha gostado disto dois meses atrás? Me deixava gorda e minhas coxas estavam grossas demais!) que até um porre de leve cairia bem num aniversário de 18 anos. Dei conta de uma maquiagem até legal, mas o meu cabelo tava numa fase absolutamente autônoma. E eu definitivamente não lhe dera tamanha autonomia, ele é que tomara pra si. Paciência.

E lá fui eu pro meio daquela gente, disposta a talvez até a abrir mão do meu direito sagrado ao isolamento social esporádico, direito esse que eu sempre clamo, mesmo nos meus aniversários. Veríamos se eu resistiria à fuga protocolar até o fim da noite.

Eu estava numa fase extremamente beatlemaníaca, então já era previsto muito Beatles naquela noite. Tocava uma que eu adorava muito quando a Gisele, uma nova amiga de fim de colégio, cutucou meu braço e falou no meu ouvido, toda animada demais.

– Ventura! Cara, quem é aquele ali? – Ela apontou na direção da mesa onde mamãe estava sentada.

Alexandre.

"It's all too much for me to take"

Droga. Quando eu o vi, meu coração disparou muito mais do que devia. Sempre disparava, nem devia disparar, devia?

E o que é que a Gisele queria com ele?

Como se eu não soubesse.

– É meu irmão – eu disse, rilhando os dentes e fechando a cara.

Ela abriu os olhos muito abertos, e a boca também. Aquela moça estava perdendo uma amiga com o passar dos segundos.

– Aquele ali é o Alexandre?? – ela disse, articulando cada palavra e apertando meu braço.

– É – rosnei.

Mordi meu lábio inferior que tremia de raiva.

– Caramba. Ele é muito gato.

"It's all too much for me to take"

E ele estava mesmo, muito lindo. Mas não tinha nada demais, tinha? Uma daquelas calça meio bege tipo jeans, a camisa azul clara com as mangas dobradas. Eu adorava quando ele usava a camisa assim. É uma camisa de manga longa com a manga dobrada, droga. É só isso. E eu gostava.

Por que eu ainda estava olhando pra ele?

Aquele calor pesado e denso que eu já conhecia e que vinha me acompanhando de perto demais agora que ele estava de novo convivendo conosco me desceu em ondas elétricas, por dentro do meu corpo. Como um vírus, uma alergia, algo que meu corpo queria expulsar, que corria o risco de me arrebentar inteira de culpa, de náusea, de raiva. Até que eu comecei a me sentir meio dormente. Não. Respirei fundo. O cheiro era de noite, mofo e salgadinho frito. Eu não estava me sentindo dormente. Eu latejava. Eu despertava.

Engoli puro pânico seco garganta abaixo. Fui dominada por um medo paralisante. Percebi que eu estava mesmo parada no meio da pista de dança.

– Você não vai me apresentar, não? – ela falou.

"All the world is birthday cake

So take a piece but not too much"

Eu ainda estava decidindo. Decidindo que jeito eu podia dar pra não apresentar, mas não achava jeito. Porque eu não ia fazer isso, merda. Eu não ia!!

Então ele olhou pra mim lá de longe e sorriu, fazendo um sinal tão discreto com a mão, me chamando só com dois dedos. Achei que eu estava desenvolvendo pulsação em todos os órgãos internos quando ele sorriu. Tudo bateu no mesmo ritmo, de encontro às minhas costelas.

– Espera aí – falei pra ela, antes que ela resolvesse ir junto.

Acelerei meus passos até ele, acho que quase corri. Ele me abriu os braços e me pegou pela cintura, me abraçando com muita força. E o que era pra ser nada mais do que um abraço de feliz aniversário me golpeou com uma violência tal que eu achei que ia me partir ao meio. Os braços dele me apertavam e eu sentia o tecido da camisa dele roçando no meu vestido. Quando inalei o ar, veio tomado do cheiro dele e fiquei zonza. Era como se eu levasse um tapa na minha cara. Eu não podia estar sentindo nada daquilo.

"Pelo amor de deus, me solta", eu implorava, sem mover um músculo pra romper o abraço. Porque aí já era pedir demais. Era tão bom...

– Feliz aniversário, Nana – ele falou dentro do meu ouvido, eu quase podia sentir os lábios dele se mexendo, encostando na minha orelha. – Eu não via a hora...

"De quê? Não via a hora de quê?"

– Tá gostando da sua festa? – Ele não me soltava.

"Por favor, Alexandre, me solta..."

Eu não queria entender, mas estava entendendo. Eu estava há anos lentamente construindo aquela absurdidade, aquela monstruosidade, e eu sabia tão bem desde quando... Desde aquela tarde na praia em Portugal, aquela tarde estranha, meio sem tempo, o colo, a água fria, o choro. Eu não queria mais aquele abraço, e ao mesmo tempo era tudo que eu queria. O que eu não queria era aquela compreensão.

– Tô – balbuciei, feito uma idiota.

Alexandre afagava minhas costas com as duas mãos, com firmeza, como se precisasse encaixar minha coluna no lugar de novo.

"Por favor, para..."

Eu não ia aguentar.

– Eu tô tão feliz de estar aqui. Você sabe que eu te amo, não sabe? Você... é muito importante pra mim. Eu faria qualquer coisa pra você ser feliz. Eu sei que você vai ser muito feliz. No que depender de mim, você vai.

"Não. Você não tá me fazendo feliz, Alexandre. Você tá me assustando. Eu não tô feliz agora. Eu tô apavorada. Com você. Por você."

Não era só apavorada que eu estava, mas a palavra rimava. Eu daria um dedo pra não pensar naquela palavra, mas não dava mais. Eu já tinha entendido e tudo se encaixava. Encaixava torto demais, porque era isso, era isso que eu estava sentindo, mas era torto, era errado. Não era pra ser assim, quando acontecesse. Era pra ser bom, não era? Mágico? Não era isso que todo mundo dizia?

Mas não era bom nem mágico. Era horrível. Porque não podia ser ele.

Não podia ser por ele. Não podia ser com ele. Nunca poderia.

– Eu trouxe dois presentes pra você, mas um eu só vou te dar mais tarde, tá?

Até que enfim ele ia me soltar daquele abraço. Percebi que eu estava tremendo e suando frio.

– Você tá bem, Ventura? – Ele olhou pra mim com a testa franzida e a expressão preocupada.

– Tô – menti mal pra caralho.

Sobre a mesa havia uma taça de vinho abandonada pela metade. Peguei e comecei a beber. Ele olhou pra mim e deu um sorriso meio torto.

– Vai me dizer que você resolveu se embebedar nos seus 18 anos, é isso?

– Achei que podia ser... adequado.

– Eu acho que é muito adequado – ele disse, porque é um péssimo irmão mais velho.

Pegou uma taça que passava numa bandeja ali perto e ainda brindou comigo. Tomou um pouco do vinho e se abaixou e pegou uma caixa no chão, colocando-a sobre a mesa. Eu tomei um monte de vinho de uma vez só enquanto ele não tava olhando.

– Isto deu um trabalho pra achar que você não imagina.

Eu olhava da caixa para ele e dele para a caixa.

– Não vai abrir, não?

Comecei a abrir o papel e meu espanto saiu num arfado esquisito. O Box Set de 1988.

– É o primeiro box de CDs – ele disse, me observando.

– Eu... sei!! – gemi, empolgada.

Ele tinha um sorriso maior do que o meu. E eu estava totalmente sem palavras.

– Mas isso é muito...

– Velho? É velho mesmo, quase tanto quanto você. Tô dizendo que foi difícil de achar, num tô?

– Eu ia dizer caro.

– Ah, tá. Caro também. É, barato não foi.

– Alexandre, quanto você gastou nisto aqui?

– Não te preocupa que eu não tive nem que vender meu carro pra isso, tá? Ainda vou deixar você dirigir meu carro quando você tirar carteira de motorista.

Ele sorriu um sorriso tão lindo que eu não resisti e o abracei.

– Obrigada. Eu adorei.

– Eu sei.

Mas soltei logo o abraço e me afastei um passo pra trás, tentando arranjar um sorriso pra ele, porque eu realmente tinha amado meu presente de aniversário.

– Boa música. Não do seu tempo, é claro. Do meu.

– Eu sempre gostei de música mais velha que eu.

De repente, Alexandre me pegou pelo braço e foi me levando pra pista.

– Não chega a ser mais velha que você, mas você era meio pirralha, e eu já... – Ele riu. – Bom, eu já dancei essa música. Mas acho que era flashback também. Não faz tanto tempo assim.

Eu ri.

"But when you're in doubt, and when you're in danger

Take a look all around, and I'll be there"

Quando eu vi, nós já estávamos dançando, eu e ele. Eu não conhecia nenhum cara que dançasse melhor que ele, eu achava que ele devia ensinar todos os garotos que eu conhecia a dançar numa pista sem ficar esquisito. Ele cumprimentou alguns conhecidos do tempo de colégio, uns amigos dele que a mamãe tinha chamado, incluindo o Chico, meu amigo favorito do Alexandre, que é uma das figuras mais estranhas e engraçadas que já passaram pela nossa casa.

– Você falou com o papai? – perguntei, curiosa, assim que ele voltou a dançar perto de mim.

Ele inclinou a cabeça, fazendo uma careta, como se não quisesse falar no assunto.

– É que eu tava meio preocupada... com vocês dois.

Ele tomou meu rosto entre as mãos. Meu coração parou.

– Hoje não é dia pra você se preocupar com os outros – falou, olhando bem nos meus olhos. E beijou minha testa.

Eu sentia meu coração batendo no meio da minha garganta, feito um surdo no Carnaval.

Eu adorava quando ele dançava murmurando a letra de uma canção que ele sabia de cor. Eu acompanhava perigosamente o movimento dos lábios dele e, em módicas parcelas, aquela convulsão voltava, quase sob controle. Quase, porque só o fato de estar ali já era falta de controle suficiente, não era? Porque eu não tinha que sentir nada daquilo, de jeito nenhum.

"I'm sorry but I'm just thinking of the right words to say

I know they don't sound the way I planned them to be

But if you wait around a while, I'll make you fall for me

I promise, I promise you I will"

Não era mais divertido. Era insuportável vê-lo dançar. Desviei o olhar pro chão, assustada. O que eu ia fazer comigo? Como eu podia... pensar as coisas que eu pensava? Sentir as coisas que eu sentia? Não podia ser assim, não podia...

Em dois segundos de distração, a minha mais nova ex-amiga estava puxando conversa com Alexandre, o que no meio da pista de dança significa falar no ouvido. O sangue me subiu em alta velocidade, me cerrando os punhos, me endurecendo as feições num instante. Me esforcei pra não parar de dançar, porque eu não podia simplesmente ficar parada feito um dois de paus no meio daquelas pessoas. E fazendo o quê? Olhando pro meu irmão e pra uma amiga minha conversando. Uma de minhas pálpebras começou a tremer. Cerrei a mandíbula com tanta força que senti o gosto dos meus dentes.

"Meu deus. O que tá acontecendo comigo?"

Até minha voz dentro dos meus pensamentos era de dar pena. Ver os dois conversando, os sorrisos, ela mexendo no cabelo. Eu queria correr dali, morrer num canto, fugir, ir embora, nunca mais olhar pra ele. Nunca mais ser vista, nem por mim mesma. Porque eu sabia o que estava acontecendo comigo. Eu sabia que isso não era ciúme de irmã.

Eu estava apaixonada por ele.

Estaquei no meio da pista de dança.

Foi sem perceber, sem querer, quando eu dei por mim estava parada com os joelhos moles e um músculo do antebraço direito produzindo espasmos. Dei um passo pra trás e esbarrei em alguém. Saí correndo em direção ao banheiro.

– Ventura?

A voz do Alexandre chamando meu nome foi ficando pra trás enquanto eu disparava por entre as mesas. Me meti no banheiro e bati a porta com tudo, girando a trinca. Eu ofegava encostada à porta, a cabeça pra trás, os joelhos meio flexionados, bambeando. Demorei muito tempo pra perceber que já estava chorando. Meu peito fazia movimentos descoordenados e eu apertava minha barriga com as duas mãos como se pudesse impedir algo de sair das minhas entranhas e se espalhar à minha volta. O que eu estava sentindo.

"Deus, não..."

E se espalhava, se espalhava como uma nuvem pesada e escura. E a pergunta que eu me fazia era a mais estúpida de todas.

"Como eu demorei tanto tempo pra perceber isso?"

Não "como isto foi acontecer?" mas sim "como eu demorei tanto tempo pra entender??"

Como se fosse a coisa mais natural do mundo! Só que não era, era a mais antinatural de todas. Meu irmão! Os pelos da minha nuca se arrepiaram em câmera lenta, um a um.

"Eu não posso estar apaixonada pelo Alexandre. Por favor, não..."

Três batidas fortes na porta me fizeram dar um salto.

– Ventura? Você tá bem, filha?

"Filha."

"Mãe."

Mãe, mãe, mãe, mãe.

No peso da estranheza, do medo, se juntava agora uma montanha de culpa me esmagando.

"Meu deus do céu, o que eu tô..."

Fazendo? Nada.

Sentindo? Tudo.

Tudo o que não podia. Tudo o que eu não devia.

Por que ele me abraçou? Por que ele me olha daquele jeito que me fura os olhos, com aquela ternura que me aquece em milissegundos?

"Porque ele é meu irmão. E gosta de mim."

Aquilo doía ardido como uma garra quente de um bicho feroz, um bicho que me rasgava do pescoço até o umbigo, sem anestesia, me expondo por dentro, me fazendo mais vulnerável do que eu podia suportar. Vulnerável demais. Aquele bicho ia me devorar viva. Eu já sentia o bafo dele em cima de mim. O cheiro do fim.

Mamãe bateu na porta de novo e eu me assustei.

– Ventura, se você não responder ou abrir esta porta eu vou mandar buscar a chave! – ela gritou.

– Eu já vou, mãe – respondi, quase num guincho.

– Você tá bem?

– Tá.

Eu devia ter dito "tô".

– Tá tudo bem. – completei.

Me olhei no espelho. Que tragédia. Maldita maquiagem que não era à prova d'água. Comecei a jogar água e esfregar o rosto, tirando a maquiagem toda. Repeti os movimentos muitas vezes. A pele ficou meio vermelha, mas a água fria foi me acalmando, me instalando dentro de um torpor de resignação que era quase confortável. Ok. Era isso. Daqui pra frente era assim que ia ser. Na marra.

"Need to tell you

Gotta tell you

I've gotta tell you!"

Abri a porta do banheiro e a música estava quase acabando.

"I will.

I will"

Quando saí do banheiro, mamãe estava do lado da porta.

– Filha, pelo amor de deus, o que te deu??

– Vontade de fazer xixi, mãe.

Ela olhou pra mim como quem não acredita.

– Tá, sei. Olha, vem cá que o teu irmão quer fazer uma coisa antes do parabéns.

"Oh, merda. Não basta o que ele já fez comigo hoje?"

Ela foi me levando pelo braço na direção dele. Ele parecia preocupado.

– Você tá bem? Por que você saiu correndo daquele jeito?

Achei que nunca mais ia querer olhar pra ele. Eu amava os olhos dele. O som da voz dele. Não respondi nada e ele me deu um beijo no rosto. Achei que ia morrer.

– Deixa eu te dar o resto do seu presente, vem. – pegou na minha mão e me trouxe pra perto da mesa onde papai estava sentado e pra onde mamãe também se dirigia. Foi só aí que eu percebi que ele estava segurando o violão com a outra mão.

– O que você vai fazer?? – perguntei, em pânico.

– Bater um bolo? – ele brincou. – Eu vou tocar pra você, boba.

– Alexandre... – sussurrei.

"Não faz isso. Por favor."

Acho que até meus olhos suplicaram. Ele passou a ponta do indicador pela minha fronte gelada, desfranzindo meu cenho, descendo até a ponta do meu nariz, e como se eu fosse um brinquedo de botão, a ponta daquele dedo naqueles centímetros do meu rosto me enviou berros aos cérebro, berros de desejo, berros de pavor, berros que estouravam meus tímpanos de dentro pra fora.

– Relaxa essa testa aí, garota. Você tá precisando beber. – E piscou pra mim.

Eu não podia concordar mais e passei a mão em mais uma taça de vinho.

Num canto do salão, perto de onde estava o bolo, havia uma cadeira. Ele foi até lá, sentou, ajeitou o violão no colo. Tão tranquilo, tão relaxado. E eu me comendo por dentro como um fogo descontrolado que lambia meus órgãos, trincava minhas costelas, chamuscava meu coração, fritava meu cérebro.

– Oi, gente. Boa noite. – A voz dele instalou um zumbido particular no meu ouvido que abafava todos os outros sons. Fiquei surda pra qualquer outra coisa que não fosse o som da voz do Alexandre.

"Se há um deus, acaba com isto agora, por favor..."

– Juro que é rapidinho, tá? Mas é que eu me fiz a promessa de compensar hoje os aniversários da Ventura que eu perdi nos últimos três anos. Não sei se isto compensa um pouco, mas, bom, eu vou tentar, tá?

Ele olhava pra mim com um calor tão morno, calmo, pacificador. Eu até consegui respirar mais devagar. Eu até consegui sorrir.

"Não importa o quanto você queira. Eu nunca mais vou ser feliz", pensei, sorrindo, enquanto ele afinava o violão.

Alguém diminuiu as luzes quando ele começava a dar os primeiros acordes e cantar as primeiras palavras. Eu agradeci a penumbra e bebi cada gota da sua voz, cada nota das suas cordas. Ele cantava sorrindo. Cantava pra mim. Sorria pra mim. Como ele conseguia fazer daquele momento o melhor e o pior da minha vida, isso eu não sabia. Compreendi que ele seria ainda responsável por vários momentos dessa natureza ao longo da minha vida. Me arrancar o chão debaixo dos pés e me aparar no ar. Me dar asas. Me mostrar abismos.

"Hey! You've got to hide your love away!"

Fechei os olhos devagar e exalei. Sim, era isso.

"Hey! You've got to hide your love away!"

Num raro momento em que ele baixou os olhos para o instrumento em seu colo, rodei os meus pelo salão. Quase todos os convidados olhavam pra ele, como seria natural. Mas a Gisele olhava de um jeito... Eu não sabia se estava com mais raiva dela ou pena de mim mesma. Porque ela podia olhar pra ele daquele jeito. Tinha autorização pra isso.

Não minha.

Tinha dele?

O que ia acontecer? Deus do céu, eu não queria ver.

De repente senti que mamãe pegou na minha mão. Olhei pra ela e ela me deu um daqueles sorrisos dela, tão abertos, tão desarmadores, que eu adoro tanto. Naquele momento, só fez eu me sentir ainda pior. Nunca mais eu seria feliz porque, dali pra frente, tudo estaria contaminado.

Voltei meu olhar pro cara do violão, o cara dos olhos mais brilhantes que eu já tinha visto, e justo porque eram tão iguais aos meus, que agora o percorriam de alto a baixo, gravando, mapeando. Aceitando.

Pela primeira vez eu dava nome aos bois. Era mais do que apavorante, era muito além de amedrontador. Era libertador. Ainda que fosse só pra mim, pelo menos agora eu sabia com que monstro eu tava lidando. Esse monstro tinha um nome. Tinha até dois nomes.

Amor.

Incesto.

 

***

 

Gather'round, all you clowns

Let me hear you say

Hey! You've got to hide your love away!

 

***

1Garota Nacional, Skank.

2It's All Too Much, The Beatles.

3The Promise, When in Rome.

4You've Got To Hide Your Love Away, The Beatles.