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Praia da Duquesa - Portugal

verão de 1999

Alexandre

ESTE CONTEÚDO EXTRA SÓ É RECOMENDADO PARA QUEM JÁ LEU "OS LIVROS DE VENTURA"

Sinceramente, se a mamãe não me tivesse deixado trazer o violão eu não sei que porra eu ia ficar fazendo neste hotel. As férias estão um saco, e ainda faltam duas semanas. Só de pensar dá vontade de correr pro aeroporto agora. Acho que eu não tenho mais idade pra isto, férias em família.

Pelo jeito nem praia vai rolar hoje, porque os dois estão brigando no quarto desde que voltamos do almoço, que foi uma boa porcaria. Já tô cheio de discutir com o papai. Detesto quando ele tá em casa. Quando ele tá viajando — que é quase sempre — é uma paz, só nós três. Queria que fosse sempre assim.

Pelo menos esse hotel tem uns apartamentos para família, grandes o suficiente pra se ter um pouco de privacidade. Além do quarto de casal, tem um quarto pequeno com uma cama de solteiro e uma saleta com TV e um sofá-cama, que é onde eu estou dormindo. A Ventura ficou com o quarto pequeno, mas as minhas coisas ficam lá também. Ela me deixa tocar no quarto dela, porque pelo menos dá pra eu fechar a porta e aí eu incomodo menos. Acho que ela está lendo na sala agora, ou vendo TV, não sei. Não escuto direito daqui.

Tô ficando cansado de tocar, já não sinto as pontas dos meus dedos. Ponho o violão de lado e me levanto da cama. Abro a porta do quarto e ela está deitada no sofá, cochilando. Eu rio sozinho, encostado na soleira da porta; ela tá tão engraçada. A TV ligada, "O Mundo de Sofia" aberto sobre o peito, ainda preso às mãos dela. A cabeça meio torta pro lado, meio enfiada nos travesseiros que eu tenho usado pra dormir, as pernas flexionadas, os joelhos apoiados no encosto do sofá. Deve ter pegado no sono sem perceber. Ela tá meio queimada de sol, as coxas estão mais vermelhas do que deveriam. Ela diz que dói dormir nesse lençol áspero de hotel. Me aproximo, resistindo valentemente ao impulso de lhe fazer cócegas na parte de trás das coxas, que estão tão fácil acesso nessa posição que ela está dormindo. Capaz que acorde tão no susto que me dê um chute no meio da cara, e vai ser bem-feito pra mim.

Ela morre de cócegas atrás das coxas. E odeia que eu sequer encoste um dedo ali. Curiosamente, quando ela era pequena, gostava de cócegas. Hoje em dia nem me deixa encostar nela. Já até me bateu uma vez. Não doeu.

Percebo que estou há um monte de minutos sorrindo e olhando-a dormir. Paro de sorrir, de novo com aquela sensação de que tem algo muito errado naquilo tudo, nesse quadro todo. Algo errado em mim.

Cara, eu odeio pensar. Odeio.

Caminho até o sofá e me agacho ao lado dela. Ela faz um barulho estranho e mexe a cabeça de repente, enterrando-a mais nos meus travesseiros. Acho que está sonhando. Não consigo não rir e acho que ela ouve meu riso.

— Hum... — resmunga, começando a despertar.

— Você dorme, hein?

Ela me olha, assustada.

— Ai, Alê, que susto! Credo...

Ela pisca rápido, boceja e fecha o livro, com os olhos meio embaçados de sono.

— Que horas são?

Eu sento no chão.

— São cinco horas. E os dois ainda estão batendo boca no quarto.

— Saco.

Ela senta no sofá. O cabelo tá todo bagunçado. Acho que nunca esteve tão comprido. Eu passo a mão em todo o comprimento, até o meio das costas. Daquela cor semifantástica, meio inventada. Antes ela até se aborrecia quando eu dizia que a cor do cabelo dela não existia na natureza. Mas eu não falava pra implicar, era um elogio. A cor do cabelo dela é linda. É muito, muito linda.

— Quando é que você vai cortar essa juba, hein?

— Leoa não tem juba, burro.

— Hummm, e você é uma leoa?

— Leão é que eu não sou, né? E se você acha que o meu cabelo é uma juba, então...

— Você não está fazendo o menor sentido.

Ela começa a mexer nos cabelos.

— Tá feio? — ela pergunta, subitamente insegura.

Feio. Que piada...

— Claro que não. É que tá enorme, você nunca tinha usado o cabelo tão comprido.

Ela dá de ombros.

— Isso é por causa da festa de 15 anos, não é? — Eu rio. Eu sei que ela odeia admitir, mas está doida pra fazer 15 anos.

— Claro que não! Ainda faltam seis meses... — Ela cora um pouco, rindo.

— Ventura, desse jeito você vai pisar no seu cabelo quando for dançar a valsa.

— Deixa de ser exagerado, Alexandre! — Ela faz uma pausa, pensando e torcendo a boca de um lado pro outro. — Você acha por acaso que o papai vai querer dançar valsa comigo?

— Acho que ele vai querer, mas você dança se você quiser.

Não era muito a cara dela querer dançar valsa nos 15 anos, se eu a conhecia bem. E eu achava que a conhecia bem. Bem o suficiente para imaginar que talvez ela dançasse, para agradá-lo.

— Se é que os dois ainda vão estar casados até lá. Se é que vai ter festa...

— Ei, ninguém tem direito de te tirar a tua festa por causa de...

— De?

Dou um suspiro.

— Você acha que eles vão se separar, Alê?

— Não sei. — Penso um pouco. No fundo é o que eu queria. — Acho que sim — respondo, por fim.

— É...

Ela está triste.

— Vamo na praia? — eu atiro.

— Só nos dois? — ela estranha.

— Eu sou maior de idade, garota, vou fazer 19 anos daqui a duas semanas. Acho que eu dou conta de andar quatro quadras com você até a praia, né? Prometo que fico tomando conta pra você não se afogar.

Ela ri, meio na dúvida.

— Não sei, a mamãe não vai ficar preocupada?

— A gente deixa um bilhete pra ela. Tá bom assim?

Ela está hesitante, e é nesse momento que mamãe ergue a voz lá dentro e nós conseguimos escutar perfeitamente bem dali do sofá.

— Não, Jean! O que foi que ele te fez? É só um garoto!

Merda.

Ventura me olha com seus olhos tão verdes, tão abertos, tão compadecidos, apertando os lábios.

— Tá bom, vamo. Deixa só eu trocar de roupa rapidinho.

Ela levanta do sofá e passa perto demais de mim. Perto demais. Sua perna esbarra no meu braço e, num reflexo aflito, eu fecho os olhos.

Que porra é essa, meu deus?

Só preciso esperar por ela alguns minutos. Ela é rápida. Sai do quarto de biquíni verde, um short branco florido e havaianas. Não consigo não sorrir. Como é que pode ser tão bonita assim?

De onde diabos vêm essas coisas que eu penso, caralho??

Meu coração dá uma batida estranha. Tipo um aviso. Nada bom.

— Tá pronta?

— Claro que não, eu vou botar uma camiseta por cima.

Ela cata uma camisetinha sem mangas cor de rosa, muito desbotada, jogada por cima da cadeira da pequena mesa de jantar num canto da saleta que está uma verdadeira bagunça. Ela veste a camiseta e prende os cabelos com aquela presilha cheia de dentes que ela adora.

— Vambora de uma vez, já deu esse hotel por hoje — eu digo, pegando-a pela mão e saindo pro corredor do elevador.

— Você vai assim? — ela pergunta, na frente do elevador enquanto esperamos.

— Assim como, Ventura?

— Você não vai botar uma camiseta?

Eu tenho que rir dessa menina.

— A gente não tá indo à praia, garota?

— Tá, mas... Sei lá, a gente vai pela rua, né?

Eu dou uma gargalhada.

— E daí?

Entramos no elevador e eu percebo que ainda estou segurando a mão dela. E solto num susto. Ela me olha de um jeito estranho.

Tudo está estranho. Eu é que tô estranho.

Eu tô com medo. Deixa pra lá. É só não pensar.

Chegamos no térreo, enfim. Só mais dez passos pra sair do hotelzinho. Até a esquina, não dizemos uma palavra. Paramos na esquina pra atravessar a rua, e, na beirada da calçada, esperando para atravessar, eu sinto os dedos dela timidamente roçando os meus. Uma. Duas vezes. Tentando se encaixar entre os meus. Eu acho que vou morrer aqui. Ah, merda. Meu coração dá de novo a mesma batida pesada de aviso, e eu ignoro. Cedo ao impulso e seguro a mão dela de novo, com força, sem pensar. Atravessamos a rua. Eu não penso. Odeio pensar. Não quero pensar. Só me faz mal.

— Alê... O que você acha que vai acontecer... se o papai e a mamãe se separarem? — ela pergunta, com a voz baixa.

Eu olho pra ela. Está triste de verdade. Talvez eu também devesse estar.

— Ele vai embora. De vez — respondo, pensando que não vai fazer grandes diferenças na prática.

Vai, sim. É tudo que eu quero.

Ela suspira profundamente. Caminha olhando pro chão. Me dá uma vontade enorme de botá-la no meu colo.

Eu definitivamente tenho que começar a ter cuidado com as minhas vontades.

— Você vai sentir falta dele?

— Não.

— Eu vou.

— Eu sei. — Aperto a mão dela.

Estamos quase na praia, já dá pra sentir o cheiro do mar e da areia.

— Eu vivo com a mão gelada. A sua mão é sempre quente.

— A sua é sempre macia.

Puta merda, Alexandre. Puta merda.

Ela solta minha mão assim que pisamos na areia. A tarde está fresca, mas o sol ainda está alto. Ainda temos pelo menos umas três horas de sol, fácil. Verão na Europa me deixa desregulado, essa noite que nunca chega. Uma sensação estranha que me angustia e me agrada. Gosto de estar desregulado.

Sento na areia e cruzo as pernas.

— Você vai entrar na água?

— Não sei — ela diz, sentando meio ao meu lado, mas um pouco atrás de mim.

Ficamos um longo tempo assim, só olhando o horizonte, as ondas calmas. O vento bate forte no meu rosto, me obriga a fechar os olhos de vez em quando, e faz um ruído quase ensurdecedor batendo na cobertura de uma barraca, como uma sequência rápida de tapas. Pá-pá-pá-pá. Tento prestar atenção ao barulho do vento e do mar, mas ouço o som baixinho do seu choro e olho pra ela. Cristo. Não dou conta de ver essa menina chorar.

— Não chora, Nana...

Ela deita a cabeça no meu colo. Num instante enorme aquilo me enche de alguma coisa, alguma sensação que eu ainda não sei que nome tem, um sentimento incômodo, e ao mesmo tempo muito, muito bom. Violentamente bom. Uma coisa que me preenche de um jeito que nada, nunca antes... Meu Deus... Num impulso, eu solto os cabelos dela e eles se espalham sobre a minha coxa, subindo um perfume suave de sono e shampoo. Pouso a mão levemente na cabeça dela e mantenho o olhar fixo no mar.

— Eu também te amo — digo sem querer. Sem pensar.

Por que é que eu tô tão nervoso? Eu nem consigo olhar pra baixo. Pra ela. Eu devia fechar os olhos. Eu devia entrar na água. Eu devia ter vindo de camiseta, merda.

Não, não, não! Isso não, Alexandre! Aqui não, agora não! Não com ela! Pensa em outra coisa, pensa em outra coisa, rápido, seu idiota! Puta que pariu, que diabos tá acontecendo comigo??

Minha irmã, minha irmã, eu repito pra mim em voz alta dentro da minha cabeça.

Mas não é. Eu sei que não é e ela sabe que não é. Ela não é minha irmã. É minha prima, só isso. Só minha prima, merda! Inferno!

E se ela perceber? Será que ela tá percebendo? Parece que tenho um trem desgovernado dentro da caixa torácica. Olho pra baixo de relance. Tão linda... Não, não, Alexandre, não. Tento me ajeitar um pouco, afastá-la um pouco do meu colo. Ela meio que me ajuda, pondo a cabeça mais no meio da minha coxa, mais perto do joelho. Solto o ar, aliviado. Eu nem tava percebendo que tava prendendo a respiração.

Ela já parou de chorar, está olhando o mar com a expressão mais triste que eu já vi no rosto dela. Será que ela tá tão triste assim só por causa das brigas, da separação? Ela toca meu joelho, primeiro só com o dedo indicador. Depois repousa devagar, suavemente a mão direita no meu joelho. Não faz isso, Ventura... Não...

Eu olho rápido pra frente de novo. Quero pôr a mão no meu peito e apertar até domar meus batimentos cardíacos, botá-los num ritmo decente. Pelo amor de deus, Alexandre. Se controla, porra. Tô tentando pensar em cálculo. Probabilidade e estatística, isso. Pode ser uma boa. Probabilidade...

Não consigo. É por isso que eu odeio pensar! Por que eu fui pensar isso, meu deus? Eu sei que isto não é isolado. Isto, hoje, isto não veio do nada. Só que é a primeira vez que eu... Que esta merda toda toma conta da minha corrente sanguínea, me desce, me quebra as pernas desse jeito, me foge do controle. O pior... O pior é que eu sei o que é isso. Eu acho que já até tem uns meses que eu sei o que é isso. Não pode. Eu não posso nem pensar nisso, menos ainda sentir isso. Não posso. Merda.

Mas o que a gente pensa uma vez, quando a ideia vem, quando o pensamento se forma, quando a frase se constrói na cabeça, não dá pra varrer fora. Não dá pra des-pensar o que já foi pensado. Menos ainda des-sentir o que já foi sentido.

Eu tô apaixonado por ela.

Eu tô ferrado.

 

*

 

Não posso olhar pra baixo. Já se passaram pelo menos uns vinte minutos. Pelo menos as coisas já se acalmaram dentro da bermuda. Mas essa porra dessa frase, dessa palavra, não se apaga, parece um letreiro luminoso diante dos meus olhos. Apaixonado. Por ela. Por quê? Quase tenho vontade de empurrá-la do meu colo. Mas não. Não tenho, não. Queria que ela ficasse aqui pra sempre.

Que que eu faço? Que é que eu faço agora? Que é que eu faço amanhã, depois de amanhã, no resto da vida, porra??

— Será que a água tá fria? — ela pergunta, tirando a cabeça do meu colo e se sentando ereta de novo.

Obrigado, obrigado, obrigado por tirar a cabeça do meu colo. Obrigado mil vezes.

— Deve estar — respondo. Minha voz sai seca, dura. Estranha.

— Eu queria entrar na água.

Pois eu deveria entrar na água fria. Eu bem mereço.

— Vamo, eu vou com você.

Vai, sua besta. Vai se afundar ainda mais. Tomara que eu me afogue.

Ela fica de pé. Agora me diz, pra que eu fui inventar de entrar na água? Pode um bicho ser tão burro quanto eu? Ela tira a camiseta e o short e joga na areia. Tudo dispara. Tudo se acende. Vai começar tudo de novo. Imbecil.

Respiro fundo e deixo que ela vá na minha frente. Por boas intenções, por más intenções. Nunca mais minhas boas e minhas más intenções vão se largar, as duas vão andar de mãos dadas dentro de mim daqui pra frente. A partir de hoje eu sou o maldito rei das boas e das más intenções, já tô vendo tudo.

E é claro que a água está gelada. Amém. São quase sete da noite, o céu está claro, mas o sol já começa a baixar. Ela desiste da água em menos de cinco minutos. Fria demais. Corre pra areia e se veste de novo. Amém duas vezes. Ainda está triste. Está mais do que triste, está estranha. Parece assustada. Ela senta na areia molhada, perto da água. As ondas vão e vêm, molhando seus pés. Eu mergulho e fico debaixo d'água alguns segundos.

Que é que eu vou fazer? Porra nenhuma, é claro. Absolutamente nada. Não tem nada que eu possa fazer, deva fazer. Nada. Ficar quieto. Ficar na minha. Tem que passar. Isso tem que passar.

Eu só queria saber onde é que eu fui arrumar isso. Onde?

Emerjo e lá está ela, toda onipresente e impossivelmente linda, de cabeça baixa, desenhando alguma coisa na areia com a ponta do dedo indicador.

É. Foi ali que eu fui arrumar isso. Naquela garota. Só quero saber como eu vou desarrumar isso. Como eu vou me livrar disso.

Balanço a cabeça, rindo de mim mesmo e olhando pra ela, pros seus cabelos molhados colando nos braços brancos que ela esfrega com força pra passar o frio.

Como é que eu vou me livrar disso? Ora, Alexandre, é muito simples.

Não vou.

 

*

ATENÇÃO! SÓ CONTINUE A LER SE JÁ LEU O VOLUME 2, "UMA FONTE DE VENTURA"!

Como se já não bastasse essa revelação escrota dias atrás, na mais longa tarde da minha vida, naquelas horas de praia intermináveis, eu arranjei um corte horrível no pé anteontem. Vidro na areia da praia. Malditas férias. Ainda bem que só faltam três dias. Não vejo a hora de ir embora daqui. Odeio Portugal, nunca mais eu venho nesta merda de praia. Só podia ter sido ideia dele mesmo. Custava a gente ter ido pra Paris, ficar na casa do tio Jacques, como todo verão? Aposto que ele queria mais privacidade para ficar destruindo o próprio casamento e brigando com a mamãe.

"Mamãe". Puta merda. Pensar nessa palavra me dá um peso estranho no coração. Que é que eu tô fazendo nessa família? Eu não pertenço a esta família. Eu não sou dessa gente. Eu tô todo errado aqui, tá tudo errado.

Quer saber? Grandes merdas. Eu por acaso não ia me descobrir apaixonado pela Ventura lá em Paris? Em casa? Na esquina do fim do mundo? Lá na puta que pariu? Como se eu tivesse inventado isso aqui em Portugal. Eu só entendi isso aqui, naquela tarde, naquela praia.

Meu pé já quase não dói mais. Lateja um pouco, às vezes. Só. Fui parar no hospital anteontem, levei ponto, pacote completo. Mamãe ficou apavorada, até o papai ficou. Merda. Porra, não quero mais chamá-lo assim, tô fazendo um esforço pra parar, sério, não quero mais.

Mas ninguém ficou tão apavorado quanto a Ventura. Acho que ela só faltou desmaiar quando voltei a pé da praia sozinho, sangrando pra cacete hotel adentro. Deu um grito quando viu a pegada de sangue no carpete, levou as mãos à boca, arregalando aqueles olhos enormes. Tão bonitinha que eu até comecei a rir. Mamãe veio correndo, e aí foi o pandemônio instalado.

E agora esta novidade. Ela quer fazer meu curativo. Tá foda.

— Você não vai saber fazer.

Eu tô tentando, juro que tô.

— Eu não sou uma tapada, Alexandre, a mamãe me ensinou ontem.

— Deixa que ela faz, então!

— Ela me pediu pra fazer hoje, eles já estão saindo pra jantar. O que custa?

Ela agora me olha de um jeito tão... diferente. Assustada. O tempo todo eu fico me perguntando se ela percebeu alguma coisa na praia. Se for isso, meu Deus... Ela deveria estar com horror a mim. Por que, ao invés disso, ela tenta se aproximar?

Talvez não seja comigo. Pode ser só por causa dessa história de separação que anda pairando acima das nossas cabeças. Acho que o cara tá tentando tirar uma bronca hoje, levando a mamãe para jantar, só os dois. A gente vai comer pizza aqui no quarto do hotel mesmo, eu e a Ventura. Ele acha um absurdo a gente comer pizza enfurnados num quarto de hotel em plenas férias em Portugal. Foda-se o que ele acha.

— Tá bom, vai. — Acabo deixando.

Uma parte de mim está toda animada com esse estágio de enfermagem.

Filho da puta. Meu deus, eu sou um filho da puta, porra.

Respiro fundo.

Também não tenho muita escolha, porque eu não consigo fazer direito o curativo sozinho. O caso é que esse corte é pelo lado externo do pé, eu fico sem ângulo para fazer as paradas todas, de limpar os pontos, passar o tal do remédio lá, e quando eu tentei fazer sozinho e fui enfaixar, ficou tudo folgado e a atadura acabou saindo e a mamãe fez um escândalo e brigou comigo. Então de verdade fica muito melhor se outra pessoa fizer.

Eu tô tão cansado de tudo isso. Dessa farsa de família, desses cuidados e gratidões. Esse teatro tá me deixando exausto.

Ventura se ajoelha na minha frente e abre a caixinha de primeiros socorros que foi comprada na farmácia por minha causa. Se as férias já estavam uma merda, melhor ainda agora que nem beber eu posso. Hoje eu tava precisando. Mas não posso, por causa de um comprimido aí que o médico da emergência me passou pra tomar por uma semana.

Por quê? Por que ela tem que ser tão cheirosa? Pai do céu. Que tortura. Vou pegar um avião agora de volta pro Brasil, vou crer num deus se eu acordar amanhã com uma amnésia definitiva, vou fugir de casa.

Não é má ideia. Pelo menos a última ideia. Mas pra fugir de casa é melhor que eu seja capaz de colocar os dois pés no chão, que não é o caso agora. E é bom que eu tenha pelo menos pra onde ir, já que dinheiro eu não tenho mesmo.

Ela senta sobre as próprias pernas e coloca meu pé sobre a coxa dela.

Puta merda.

Não consigo respirar.

Acho que ela está meio nervosa. Nem metade do que eu estou. Isto não vai dar certo. Merda. Já não está dando certo.

Droga! Lá vou eu de novo. Probabilidade e estatística, Alexandre, probabilidade e estatística. Puxo um travesseiro pra cima do meu colo. Probabilidade e estatística. Malditos 19 anos amanhã. O que eu não dava pra ter uns 80 anos agora. Inferno.

Ela sabe fazer o curativo, é claro que ela sabe. Como é que eu consigo ficar tão excitado e tão enternecido ao mesmo tempo? Filho da puta.

— Alexandre, quer ficar quieto, por favor? Eu não quero te machucar.

— Você não vai me machucar porque nem tá mais doendo.

— Mas tá bom? Eu tô fazendo direito?

Eu suspiro pesado. Porra. O que é que eu digo? Que este capítulo hospitalar das férias é um dos momentos mais sublimes de toda a minha vida? Que eu tô a ponto de explodir em mil pedaços?

— Mais ou menos.

É isso que eu digo, com uma voz estranha que nem parece minha. Quase um grunhido.

Ela franze a testa e faz um bico enorme, aborrecida.

— Chato.

Linda.

Inferno!

 

***