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Três capítulos de Alexandre para

Isadora Abranches

 

I

Junho de 2009

(esta cena se passa antes de começar a ação de "Os Livros de Ventura")

— Alexandre.

Isadora já tinha começado a introduzir o assunto três vezes. Não combinava com ela, essa hesitação toda. Franzia as sobrancelhas, torcia a boca.

— Fala de uma vez, Isa — ele disse, roendo o canto da torrada com os olhos alternando entre ela e a televisão.

— Não, não. Desliga essa TV.

Alexandre olhou para ela, estranhando, mas pegou o controle e desligou a TV. Isadora coçou a ponte do nariz.

— Seguinte, eu tô resolvendo te falar isso neste ponto aqui, eu acho que é meio... Porra, como é a palavra?..

— Não faço ideia... — ele murmurou, confuso.

— É incomum, vai. Não era a palavra.

— Ok.

— Porque não quero ficar segurando desconfiança sozinha, sabe? Eu não tenho talento para suspense.

— Parece que tem — disse Alexandre, arqueando as sobrancelhas e sorrindo para ela.

— Eu tô atrasada. Acho que eu tô grávida.

É. Ela não tinha talento para suspense.

Alexandre ficou paralisado por alguns segundos com a mesma expressão congelada no rosto. Até que soltou um riso curto, contaminado de nervosismo.

— Minha nossa... Aí vamos nós.

Isadora olhou para ele, surpresa com a reação. Não era o que ela esperava. Ela havia se preparado para coisa pior. Não sabia bem por que, mas achava que podia esperar o pior dele nesse aspecto da vida, embora em outros aspectos Alexandre fosse perfeito. Ele era exatamente o tipo de namorado que ela gostava de ter: sem frescura, safado, sem grude, bom de cama e sem ciúme, ela que já tinha sofrido tanto na vida com ciúme de namorado que por um tempo teve verdadeiro pavor de se relacionar com homens. Mas ele era péssimo de família. Péssimo. Sem raiz, sem vínculo, displicente, cheio de rancor, não fazia esforço, tinha uma reserva perigosa de desprezo e deboche pelo simples conceito de família. Tinha também um bocado de bons motivos, era verdade. Não era exatamente um cara que, por esse histórico, ela fosse escolher para ser pai do seu primeiro e talvez único filho, algo que se tem de considerar ao engravidar aos 35 anos. Tirando isso... Tirando exatamente isso, ela o escolheria. Para isso mesmo, para ser pai de um filho dela. Porque ele era esperto, divertido, honesto, muito virado e um cara legal. Ela gostava dele. Por que não? Talvez estivesse mesmo na hora. Eles tinham o melhor namoro que ela tinha tido nos últimos, não sei, talvez seis, sete anos? Nunca são tantos namoros assim. Para começar, a maioria é rolo sem rótulo. Nem dá para fazer uma comparação. Eles tinham uma relação e era muito boa.

Mas como pai? Ela tinha suas dúvidas. A vantagem, ou não, era que Isadora estava descobrindo, naqueles dias de atraso, que estava louca para ser mãe. Era a hora, ela sentia isso com uma força que desconhecia dentro de si. Naquele nível de "foda-se se o Alexandre não quiser". Mas, ao mesmo tempo, não tinha a intenção de chegar simplesmente oferecendo uma opção de saída para ele. Não mesmo.

De todo modo, ela estava surpresa com a reação dele. Ali, olhando para ela com as sobrancelhas levemente arqueadas e um sorriso meio torto, sem mostrar os dentes. Meio perplexo, meio nervoso. Mas... totalmente diferente do que ela esperava.

— Mas, e aí? Tem que confirmar, né?

— É... — ela balbuciou, tentando organizar os pensamentos. — Eu tava pensando em esperar mais uns dois dias e aí fazer um teste.

Ele assentiu, mordendo o lábio inferior por dentro. Com força. Estava em pânico. Por que ela queria esperar? Não podia fazer logo o teste, merda? Respirou fundo. Devagar. Ela devia saber o que estava fazendo, porra. O ciclo menstrual é dela, certo? Ela lida com isso há muitos anos. Ora, por que então não deixava para falar quando já fosse uma certeza?

Porque Isadora era assim. Pragmática. Sem dramas. Se ela estava passando por aquela dúvida, se aquilo dizia respeito a ele também — e dizia, porra! — ele deveria passar pela mesma dúvida, do mesmo jeito que ela e acabou.

Mas ele achava que estava se saindo bem, dadas as circunstâncias. Achava que estava conseguindo passar confiança para ela. O mais importante era não ser um canalha. Nunca ser um canalha.

Ele tinha treinado isso algumas vezes. Ridículo, né? Mas ele tinha. Não queria ter uma reação horrível na frente de nenhuma mulher que estivesse passando pelo nervosismo de ter que dar uma notícia como essa para ele. Não era esse homem que ele queria ser. E ele sabia que entraria em pânico na hora. Que sentiria a garganta fechar, como estava sentindo agora.

— Tá tudo bem? — Isadora perguntou de repente.

Alexandre se deu conta de que ainda estava segurando a torrada. Pousou-a no prato e lambeu dos dedos as migalhas, se pondo sob controle.

— Tá — ele respirou fundo. — Meio... no impacto ainda. Mas tá tudo bem. Não é como se a gente não estivesse fazendo nada que pudesse dar em filho, né?

— É.

— Mas... meio inesperado. Né?

— É — ela disse de novo. — Inesperado.

Mais uma vez, duvidou de si mesma. Ela estava há mais de uma semana muito atenta ao início do fluxo. Atenta demais. Queria tanto assim ser mãe? Tinha sido descuidada? Propositalmente?

Não. Isso, não.

Mas por que não tinha essa sensação de que tinha sido inesperado?

Olhou para ele e sentiu uma desconexão nova. Será que alguma vez, para algum casal, a notícia de uma gravidez era recebida da mesma forma pelos dois? Aqueles que tentam por muito tempo, talvez. Ela não saberia, porque com certeza não era o caso deles dois. Aquela gravidez não era igual para os dois.

Nem estava confirmado ainda, como ela podia pensar dessa forma?

Isadora suspirou e se pegou sorrindo. Já sabia.

Alexandre ia fazer o melhor que podia, por menos que ela confiasse que isso seria suficiente. Era triste constatar que a certeza de que nele não havia a premeditação da má intenção já era suficiente alívio, mas era verdade. Era bem assim que ela se sentia. Ligeiramente curiosa para ver como Alexandre ia se sair naquilo tudo, mas sem muita coragem de apostar nele. Não se arriscaria tanto assim. Contudo, estava muito estranhamente feliz.

— Vai ficar tudo bem, você vai ver — ela disse, toda recomposta da sua calma tão particular.

Alexandre assentiu. Devagar. Algumas vezes. Estava começando a perder o controle do seu ensaio. Estava ficando tudo real demais. Ele só tinha que não fazer merda. Não sabia muito bem qual era o certo a fazer, mas tinha uma boa ideia do que era errado. Do que ele não queria fazer.

Uma das coisas a não fazer era fugir.

E, por deus, era tudo que ele queria fazer naquele momento. Fugir.

Não adiantava o quanto ele evitasse. Ele sempre seria o homem que não queria ser.

 

*

II

Agosto de 2009

(esta cena se passa após o capítulo 7 de "Os Livros de Ventura")

— Meu deus, Alexandre, mas parece que é você que tá descompensado dos hormônios hoje, o que você tem? — Isadora perguntou, sorrindo e se divertindo com o mau humor dele enquanto desfazia sua mala.

Alexandre olhou para ela, parado na porta do quarto dela, no apartamento dela. Lentamente, ele fechou os olhos. A intenção era se acalmar. Mas eram aqueles olhos verdes que voltavam, impressos no verso das suas pálpebras, como uma tatuagem viva. A respiração dela, colada ao seu rosto, na noite anterior quando quase... Quase.

"Meu deus."

Nunca mais seria possível se acalmar. Se ele estava entendendo o que ele estava entendendo, desde uns dias antes, no restaurante, no seu aniversário. Não, antes! Quando falou com ela no telefone para contar sobre a gravidez. Antes ainda? Por que agora tudo fazia sentido? Porque fazia! Fazia sentido, merda! Tudo! Todo o comportamento dela, todos esses anos! Como ele podia ter pensado isso? Nem ele era tão louco assim!

Alexandre olhou para Isadora de novo. Nunca tinha se sentido tão sem opção na vida. Tão marcado. Reservado. Ocupado. Ele não sabia o que ia acontecer, mas sabia o que não ia mais acontecer. Tinha acabado a brincadeira de tentativa e erro que ele tinha conduzido por anos.

— Isa... A gente precisa conversar.

Curvada sobre a mala, Isadora ergueu os olhos para ele. Isso nunca era bom. Não era pelo clichê. Isso nunca era bom vindo de ninguém, mas vindo do Alexandre? Era péssimo. Alexandre não era nem o tipo de homem que, lá no começo, puxa aquele tipo de conversa séria do "vamos com calma, eu não quero frustrar as suas expectativas". Alexandre era exatamente o tipo de cara que deixava as coisas acontecerem conforme o fluxo, desde que fosse bom pra ele e pra ela. Isadora sempre se sentira confortável com isso. Segura, em certa medida. Com espaço para ser ela mesma, sem precisar se calcular. Mas, olhando para ele agora, ali na porta do quarto dela, inquieto, o retrato da angústia, ela entendeu que havia muito terreno que ela nunca tinha trilhado naquele homem. Talvez ela tivesse achado que isso não tinha tanta importância, antes. Mas agora havia aquele bebê, que os ligaria para sempre. Agora tudo tinha importância.

— Fala.

Ele passou a mão pelo rosto, comprimindo os lábios.

— Antes de mais nada, eu preciso que você entenda que isso que eu vou dizer é sobre nós dois e não tem nada a ver com o bebê.

Isadora deixou escapar uma risada curta, quase debochada. Alexandre olhou para ela, surpreso.

— Não existe isso, Alexandre. Tudo diz respeito ao bebê a partir de agora.

Alexandre a encarou. Ela tinha razão. Mais do que podia imaginar.

— É. Acho que sim.

Eles se encararam em silêncio por um instante enquanto ele escolhia as palavras. Não era uma tarefa simples para ele naquele momento.

— Isa, eu tô... no meio de uma coisa. Na minha vida. Uma coisa que... não era para acontecer. Não era prevista. E que... — Ele parou e respirou devagar. Não estava bom. Precisava ser direto. — Isa, eu não posso mais ficar com você. Como casal.

Isadora piscou duas vezes. Havia surpresa e não havia. No momento em que ele disse que precisavam conversar, é claro que a primeira coisa que ela pensou foi "ele vai terminar comigo". Mas cinco minutos de preparação emocional não é suficiente. Ela estava grávida. Dele. Acabava de voltar de viagem. A sensação de desamparo foi um golpe inevitável.

O que tinha acontecido durante aquela viagem?

— O que aconteceu durante a viagem? — ela perguntou, simplesmente porque ela era assim, não era de calar perguntas.

— Nada — ele disse, e não era mentira. — Eu só... Escuta, Isa, você tem razão. Isso aqui tem tudo a ver com o bebê. Eu não quero mentir para você. Eu não quero trair você.

Isadora sentiu que sua coluna se endireitou. Por que isso era bom e ruim de ouvir? Por que ela tinha vontade de dar um soco nele por resolver ser honesto? Não podia só calar a boca? Ela não queria ouvir nada daquilo, merda. Não tinha a ver com ela, tinha?

Pensou no que tinha dito a ele minutos antes. Tinha, sim. Agora tudo tinha importância entre eles dois. Ela estava ligada a ele. Ainda não tinha tido oportunidade de odiar isso, essa ligação compulsória. Era agora esse momento. O momento em que se sentia ferida. Atingida.

— E isso já é diferente do que eu me dispus a fazer antes na minha vida.

— Que honra — ela disse. — Parabéns.

Alexandre fechou os olhos e exalou devagar.

— Eu não sei o quanto é melhor ou pior, mas... Isso que eu tô dizendo é só como casal. Eu quero ser o pai do seu filho.

— Você não quer. Você é. Pai do nosso filho.

— É isso. Eu sou. Porra, eu falo tudo errado. Nosso filho.

"Não seja um canalha. Não seja um canalha, merda!"

— O que eu quero dizer é que eu vou fazer o que eu tiver que fazer, eu quero...

— O que é que tá acontecendo, Alexandre?

— Como assim?

— O que é isso que tá acontecendo na sua vida? — ela perguntou, elevando a voz e finalmente largando a mala e encurtando a distância entre eles. — Porque também tem uma coisa acontecendo na minha vida e também é inesperado, sabe? Então eu acho que eu tenho o direito de saber o que é isso aí que tá acontecendo na sua vida!

Isadora não gostava de estar falando como se estivesse exigindo dele que ele continuasse sendo seu namorado, porque, pelo amor de Deus, não era isso. Àquela altura? Ela não queria mais! Mas estava ferida, não conseguia fazer sentido direito, não sabia mais muito bem o que queria. Só sabia que queria entender o que estava acontecendo.

— Eu não posso te contar.

— O quê??

— Isa — Alexandre falou, quase cerrando os dentes. — Pensa em alguma coisa muito pessoal. Pensou? Pois bem. É vinte vezes mais pessoal do que isso que você pensou.

Isadora bufou. Puta merda, como ele era arrogante! Ele achava que ela não tinha vivido nada? Ele não sabia nada da vida dela, porra!

Alexandre acompanhou com o olhar atento o andar furioso de Isadora pelo quarto.

— Isso é ridículo, Alexandre.

— Desculpa, Isa, mas eu não posso — ele falou, mais baixo.

— Por quê??

"Porque você vai ficar completamente chocada. Porque você não vai acreditar que se envolveu com um homem que é capaz de fazer o que eu quero fazer. E eu vou fazer. Se eu tiver oportunidade, eu juro que vou. É a única chance de minha vida não ser um desperdício completo."

— É um crime? — ela perguntou de repente, olhando o semblante dele, sério como ela nunca tinha visto. — Drogas? O que você fez, Alexandre??

Ela já estava ficando aflita de verdade.

— Não, Isa, não é nada disso, pode ficar tranquila. Não é nada com polícia, nada com bandido, nada que vá me impedir de cumprir meu papel de pai, eu juro. Eu juro. Tá tudo bem.

Isadora olhou para ele parecendo só um pouco mais calma. Só um pouco. Mas ele não deixou passar a chance.

— Você vai ter que confiar em mim. É meu, é sério, é importante demais pra mim, mas eu não posso te explicar. Não posso.

Isadora só conseguia encará-lo, com a testa franzida, tentando decidir o que fazer com aquilo.

— E, a não ser que você prefira me tirar da sua vida depois disso, eu... gostaria de participar como for possível da gravidez — ele disse, empurrando as palavras para fora da boca, porque era preciso. — Você decide. Eu não vou me impor. Mas eu quero.

Ela exalou e sentou na beira da cama, cobrindo o rosto com as duas mãos.

— Desculpa, Isa... — ele disse, em voz baixa.

Estava aflito. Vê-la assim lhe revolvia o estômago. Ele não tinha previsto isso e teria evitado, se pudesse. Se não achasse que seria muito pior de outra forma. Queria ir embora e, ao mesmo tempo, queria consertar um pouco as coisas. Não achava que fosse possível. Só queria uma garantia mínima de que aquela mulher não ia odiá-lo. Talvez só por hoje. Se a partir de amanhã começasse a melhorar, ele já se daria por satisfeito. Já tinha sido odiado por muitas. Sabia que tinha que ter cuidado com aquela ali. Mais do que isso, ele queria ter muito cuidado com ela. Estava se reprogramando inteiro com um esforço que lhe custava mais energia do que ele dispunha num dia normal de sua vida. E que, naqueles dias, desde que Ventura tinha arfado de susto daquele jeito do outro lado da linha, era mais esforço ainda. Desde a noite do seu aniversário, desde que ela saiu do restaurante naquele estado e ele foi atrás minutos depois e o manobrista disse que a moça estava tremendo e chorando quando pegou o carro. Desde a noite que eles tinham passado juntos, na mesma cama, sem se tocarem... Nada mais existia. Toda a energia dele, tudo que havia dentro dele, de bom e de ruim, tudo estava voltado para o ímã poderoso que era o amor que sentia por Ventura e que ele sufocava, desde sempre.

Mas ele tinha que olhar para Isadora. Ele tinha que ser capaz de abrir os olhos e enxergar ali uma pessoa. Que também precisava dele.

— Eu só tô tentando fazer o...

— Eu sei — ela cortou, sem olhar pra ele. — Eu tô entendendo.

Ele precisava esperar. Era como um veredito? Parecia.

Isadora ergueu os olhos para ele.

— Você não vai me falar mais nada, né?

Alexandre negou com a cabeça. Isadora bufou, cansada, e se deixou cair para trás, deitando na cama de olhos fechados.

— Pega um copo d'água pra mim, por favor, Alexandre.

Ele tentou segurar o sorriso.

Virou e foi para a cozinha. Tinha alguma coisa naquela mulher que a tornava diferente de todas. Podia ter sido ela. Teria sido fácil. Mas não ia ser. Mesmo que nada acontecesse nos próximos dias daquilo que ele ansiava tanto, com tanta força, agora já não ia mais ser com Isadora, ele sabia.

Voltou para o quarto e entregou o copo para ela. Ela bebeu.

— Alexandre, isso aqui não tem volta — disse Isadora, quando terminou de beber a água.

— Eu sei.

— Você não vai brincar comigo, não.

— Não quero fazer isso.

— Você não vai tirar férias para resolver sua vida e voltar depois se...

— Eu sei, Isa. Eu não vou fazer isso.

Ela assentiu devagar, olhando pra ele.

— Você tá muito puta comigo? — ele perguntou.

— Você quer uma massagem no seu ego, babaca?

Ele arregalou os olhos pra ela, mas acabou quase rindo.

— Porra, Isadora...

— É, Alexandre, fala sério. O que você quer? Saber como eu tô me sentindo depois de levar um pé na bunda? Vai fazer bem pra você?

— Ah, droga... Não é isso, Isa... — Ele baixou a cabeça, com a mão na testa.

— É um pouco, sim, Alexandre. Você não vai me consolar como amigo depois de terminar comigo, tá bom? Não se dê esse luxo. Não vai colar.

— Tá certo, desculpa. O que eu faço agora?

— Você dá meia volta e vai embora, é isso que você faz agora.

Era tudo que ele queria ouvir.

— Sexta-feira que vem tem ultra.

— Eu vou. Quer dizer... Se você...

— Você pode ir, sim. Eu acho. Se eu estiver com ódio da sua cara, eu te aviso.

Ele não segurou um riso curto.

— Isso não está descartado — ela alertou.

Ele assentiu, com um sorriso.

O que Isadora mais odiava era não poder dizer bem alto — para si ou para ele — que ele estava apenas confirmando a validade da regra que ela tinha se proposto tempos atrás de não se envolver mais com homens, à qual ele próprio tinha sido uma exceção. Ele aparentemente estava mesmo tentando ser honesto, embora não estivesse sendo inteiramente aberto e franco com ela. Bem. Ela também nunca tinha sido com ele. Ambos tinham esqueletos no armário. Parecia que os dele estavam bem vivos e ele não esperava por isso. Viu ele se virar e sair do quarto, como ela tinha pedido. Mordeu o lábio inferior com força quando ouviu os passos dele atravessando a sala e, quando a porta bateu, ela se deixou chorar. Ia sentir falta dele. Ela mesma, como mulher. Naquela mesma noite, e amanhã, e ainda por uns dias ou mais. Ia vê-lo no trabalho e, no começo, seria horrível. Mas ele seria divertido e relaxado e talvez isso fosse bom, ou pior. Ela não achava que ele seria mais pai daquela criança do que a maioria dos pais era. Nome, pensão, finais de semana, férias. Ele seria correto e só. Sem estar ativamente numa relação com a mãe da criança, Alexandre não era o tipo de homem que tivesse o mínimo necessário de sentimento familiar para ir atrás de construir uma relação real e sólida de afeto com um pedacinho de gente que só chora. Isso acabaria por minar, pouco a pouco, o que ela tinha sentido de bom por ele enquanto estavam juntos, a cada pequena decepção. E talvez, depois de alguns anos, ela pudesse afinal dizer em voz alta, para si e para ele, que ele era, sim, a confirmação de que era uma regra muito válida parar de se envolver com homens, porque nenhum valia o esforço.

Foi o que Isadora previu, sentada na cama, chorando.

Ela estava muito enganada.

 

*

III

Dezembro de 2010

(algum ponto entre os capítulos 58 e 59 de "Um Fado para Ventura")

Portanto esta terceira parte vocês ainda não podem ler...